
Valberto José
Jornalista, habilitado pelo curso de Comunicação Social da Universidade Regional do Nordeste (URNE), hoje UEPB. Colunista esportivo da Gazeta do Sertão e d’A Palavra, passou pelo Diário da Borborema e Jornal da Paraíba; foi comerciante do setor de carnes, fazendo uma pausa de 18 anos no jornalismo.
Regionalismo moldou o meu gosto musical
Publicado em 8 de setembro de 2025Creio que o meu gosto musical não foi definido por uma, duas ou um quinteto de canções em minha tenra idade. Essa predileção ganhou contornos definitivos, imagino, ao ouvir uma diversidade de vozes e ritmos regionais, românticos e populares. A pergunta “quais as cinco músicas que definiram seu gosto musical?” nas redes sociais e repercutida no blog de Sílvio Osias despertou minha memória afetiva de ouvinte radiofônico pueril.
Minha infância feliz foi ouvindo intensamente os programas musicais das rádios de Campina Grande, sobretudo os de configuração regional. Mas também os de canções românticas e, claro, os que tocavam os sucessos do momento, como se dizia naquele tempo.
Morando ao lado da casa de meus avós paternos, pouco tempo depois que acordava corria para lá, encontrando o rádio no centro da sala ligado em programa de forró. A partir das oito horas, o regionalismo continuava dando vez e voz à cantoria de viola, no programa Retalhos do Sertão, apresentado por Rosil Cavalcanti. Dos repentistas, lembrava apenas de Zé Gonçalves; de repente, o Google devolveu Cícero Bernardes ao meu “HD” afetivo.
À noite, após o descanso do jantar mais cedo e da “Voz do Brasil”, a sala de Seu Patrício e Dona Aurora se enchia de filhos, genros, netos e até vizinhos para ouvir o programa Forró de Zé Lagoa. E tome forró!
Ouviam-se músicas de Rosil nas vozes de Jackson do Pandeiro e Luiz Gonzaga (deste, Ô véio macho, Faz força, Zé; daquele, Sebastiana, Moxotó,etc). Ainda os cantores Elino Julião, Genival Lacerda (Forró de Zé Lagoa – música-tema do programa), Jacinto Silva, Abdias, Marinês, Coroné Ludugero, etc. Também, na infância ouvi muito o gaúcho Teixeirinha.
A avalanche de sons regionais na minha infância radiofônica não impediu o acesso ao modismo e movimentos musicais da década de 1960. Roberto Carlos mandando tudo para o inferno, Chico Buarque vendo “A banda” passar, Paulo Diniz querendo voltar pra Bahia, Martinho da Vila passando no vestibular. Também Jerry Adriani, Wanderley Cardoso, Nilton César etc. Apreciei bastante marchinhas carnavalescas e frevos.
Minha adolescência de saudade, passada no Sertão, me levou a ouvir em demasia os cantores posteriormente chamados de bregas. Zé Ribeiro, Mauricio Reis, Genival Santos, Bartô Galeno, Lindomar Castilho, Evaldo Braga. Ouvia-os em casa, manuseando os produtos que papai vendia na região; e nas viagens no hoje transporte alternativo era só o que tocava.
Também nessa época fui apresentado a Raul Seixas, Fábio Júnior, José Augusto, Fernando Mendes. De tão estrondoso o sucesso, os dois cinemas de Patos só tocavam Raul antes das sessões; outro tempo era Mendes infernizando nossos ouvidos. Claro que ouvi forró na rádio local, a Espinharas, no programa de Batista Leitão, e ainda música de cinema no de Adalberto Pereira.
Foi numa escola patoense que o professor Osman nos alertou para a qualidade da letra da música. Em outra aula, a professora Marlene César levou um disco de Chico Buarque e outro de Geraldo Vandré, em plena ditadura militar, e tocou em sala de aula “Construção” e “Pra não dizer que não falei de flores”.
Essa diversidade de sons e ritmos consumidos na infância e adolescência me tornou um ouvinte musical que escuta de tudo, sem preconceito. Desde que me agrade e não agrida os meus ouvidos.
