
Valberto José
Jornalista, habilitado pelo curso de Comunicação Social da Universidade Regional do Nordeste (URNE), hoje UEPB. Colunista esportivo da Gazeta do Sertão e d’A Palavra, passou pelo Diário da Borborema e Jornal da Paraíba; foi comerciante do setor de carnes, fazendo uma pausa de 18 anos no jornalismo.
A insensibilidade de Gonzaga ao mudar verso de Asfóra
Publicado em 29 de agosto de 2025O mesmo talento com que tocava sua sanfona e cantava suas músicas, Luiz Gonzaga usava na escolha das letras de seus baiões, xotes, forrós etc. Escolhia a dedo! Essa sensibilidade seletiva do Rei do Baião nos legou preciosidades como Asa Branca, Assum Preto, Xote das Meninas, Acauã, Numa Sala de Reboco; e revelou compositores e poetas do quilate de Humberto Teixeira, Zé Dantas, José Marcolino.
O rigor com que Gonzaga selecionava seu repertório de letras e poesias traduzindo os costumes e a realidade do sertão nordestino relegou compositores paraibanos como João Gonçalves e prestigiou a obra de Rosil Cavalcante, Antônio Barros e José Marcolino. E até um poema de Raymundo Asfora – Tropeiros da Borborema, musicado por Rosil e considerado o hino não oficial de Campina Grande.
Aliás, certamente a única vez que a insensibilidade aflorou em Luiz Gonzaga foi quando mudou um verso dessa obra de Asfora. Lamentável, pois autêntico na interpretação da música, intercalando frases usadas pelos tropeiros na sua lida levando e trazendo mercadorias pelas estradas de terras de antigamente pelos sertões do Nordeste.
“Pega o aceiro da rua, Medalha”, “Tu nunca visse luz eterna’, “Urra!”, “Te apruma, medalha”, “Tarás feito mulher dama quando ver caixeiro-viajante” são frases que realçam a melodia, nitidamente composta traduzindo a marcha e o ritmo dos animais, na morosidade de seus passos.
Os versos iniciais de Tropeiros das Borborema são “Estala relho marvado, embora a burrama gema, quero é rever os antigos tropeiros da Borborema”. Luiz Gonzaga gravou trocando “embora a burrama gema” por “recordar hoje é o meu tema”, quebrando a originalidade da letra. Biliu de Campina e Santana regravaram a canção corrigindo essa distorção.
Vez em quando um cantor troca versos ou palavras na regravação de uma música. Um dos clássicos de Gonzaga – Assum Preto – perdeu duas palavras quando Sérgio Reis lançou o álbum “Retrato do Meu Sertão”, em 1976, de canções caipiras. O verso “mil vezes a sina de uma gaiola” foi mudado para “melhor a sina de uma gaiola”, certamente adaptando-o à linguagem da gente consumidora da música sertaneja de então.
Sempre estranhei o verso “recordar hoje é o meu tema” inserido no poema de Asfóra, achava-o destoante. Tinha um quê na minha cisma, fiquei a pensar, quando tomei conhecimento de que fora trocado. Creio que a troca foi um raro momento de insensibilidade do Rei do Baião.
