Valberto José

Jornalista, habilitado pelo curso de Comunicação Social da Universidade Regional do Nordeste (URNE), hoje UEPB. Colunista esportivo da Gazeta do Sertão e d’A Palavra, passou pelo Diário da Borborema e Jornal da Paraíba; foi comerciante do setor de carnes, fazendo uma pausa de 18 anos no jornalismo.

A primeira viagem com meu pai ainda veleja nas águas da memória

Publicado em 7 de agosto de 2025

A viagem duraria a distância entre Campina Grande e Recife e o tempo de um bate volta de interesse meramente comercial. No entanto, a generosidade repentina de meu pai me levou a lugares mais distantes. Foi o meu primeiro passeio interestadual com Zé Patrício, que deixara a profissão de motorista de lotação para se arriscar no comércio ambulante pelos sertões da Paraíba, Ceará e Rio Grande do Norte, onde já fidelizara uma clientela.

Na nova atividade, José Lopes de Almeida tinha em nossa cidade e na capital pernambucana as fontes de aquisição de sua variedade de produtos a distribuir nas mercearias sertanejas. Aqui, os armazéns de miudezas da Rua João Pessoa; lá, os comprimidos que o fizeram a ser conhecido nas cidades por onde andava como “seu Zé dos Cachetes” ou alguma novidade que, por acaso, não tivesse chegado na Rainha da Borborema.

O convite para acompanhá-lo a Recife surpreendeu até minha mãe e já viajei com destino determinado. Na volta, de trem, ficaria em casa e papai seguiria viagem até Iguatu, no Ceará. Sem qualquer aceno do primogênito, o lento balanço do vagão foi amolecendo o coração paterno, conforme o comboio se aproximava da terrinha. Ao aproximar-se de Fagundes ou Galante, ele me falou que eu também seguiria viagem.

Não lembro que idade tinha, nessa aventura ao lado de papai, provavelmente sete anos, se muito oito; recordo que no final da manhã ou início da tarde, um Ciferal da Empresa Progresso nos levou até Recife, cortando estradas de terra, sob uma insistente garoa. Em Itabaiana, uma parada em restaurante de alpendres laterais e frontal, onde foi servido almoço ou lanche.

Na vacância de uma cadeira próxima ao motorista, papai me incentivou a sentar nela, onde teria uma visão privilegiada da estrada e das paisagens urbana e rural; no meu receio de ser reclamado pelo condutor, ele me segurou a mão e me levou até lá, e ficamos na poltrona única, ao lado dos batentes da porta, vendo tudo.

A chegada em Recife foi no final da tarde, já escurecendo. De imediato, papai iniciou o processo de compras das mercadorias; depois, rumamos para a dormida na casa modesta de um amigo, subindo e descendo ladeiras. Não sei que bairro se localizava, mas certamente próxima à estação ferroviária, pois acordamos pela madrugada e para lá, a pé, nos deslocamos alheios ao perigo da noite e da iluminação precária.

Chegamos em Campina Grande no início da tarde, onde minha mãe nos esperava na Estação Nova, certa de que eu voltaria com ela para casa. Seguimos viagem. Pouco eu lembro; recordo apenas das paradas nas estações de Puxinanã, Pocinhos e as da região de Passagem das Espinharas. Nosso ponto final, em solo paraibano, foi em Sousa, aonde chegamos à noite, dormimos e de madrugada pegamos outro trem, que nos deixou em Iguatu.

Desta cidade, pouquíssimas lembranças. Lembro que passamos por debaixo de uma ponte, que seria do rio Jaguaribe em tempo de seca; recordo igualmente de, numa mercearia onde meu pai vendeu alguns produtos, eu provei uma cocada de gosto diferente. Lá, senti um desarranjo intestinal que atrapalhou papai nos seus negócios.

Quase 60 anos depois, estou aqui a recordar essa aventura com meu pai. Outras vieram, mas poucas ao seu lado, pois, a partir de meus 12 anos, ao nos mudarmos para o Sertão, ele me colocou na rota de suas praças, vendendo os produtos que comercializava, principalmente nos fins de semana. Até o meu retorno a Campina Grande, em 76, para continuar os estudos no Gigantão da Prata.