Do paraíso ao caos. A trajetória de Alexandre Gallo no Botafogo-PB começou em fevereiro de 2025, poucas semanas após sua saída do Santos, onde atuava como executivo de futebol. Com passagens pela CBF e por clubes de ponta, como Atlético-MG, Internacional e Náutico, o ex-treinador desembarcou na Maravilha do Contorno como o novo CEO da Sociedade Anônima do Futebol (SAF), com a missão de liderar uma guinada institucional no clube paraibano. Porém, os meses seguintes à sua chegada, marcados por promessas de profissionalização e modernização, não saíram do papel como previsto, e o desfecho foi distante de tudo o que havia sido planejado.
Sua apresentação aconteceu no dia 4 de fevereiro, na Maravilha do Contorno. Na ocasião, Alexandre Gallo foi apresentado oficialmente como CEO da SAF do Botafogo-PB, ainda antes da conclusão de todos os trâmites legais da nova estrutura societária. Na ocasião, o dirigente anunciou o retorno de Henrique Dourado ao clube e confirmou a entrada de Filipe Félix como novo investidor.
Ao lado de Lucas Franzato e Celso Colombo Neto, o empresário passou a integrar o trio que conduzia a Belo Holding, empresa responsável pela gestão da SAF do clube. Com o grupo assumindo a gestão do futebol, o clube avançou à final do Paraibano, mas acabou ficando com o vice-campeonato, ao ser derrotado em casa pelo Sousa pelo segundo ano consecutivo.
O CEO se torna também sócio da SAF
Com o passar das semanas, Alexandre Gallo não apenas ocupava o cargo executivo, como passou a integrar a estrutura acionária da holding. O próprio dirigente admitiu, em entrevista em março, ser um dos sócios da SAF, ao comentar uma proposta recebida do Criciúma. Segundo ele, sua “vida era corpo e alma” no Botafogo-PB.
Esse envolvimento mais profundo com o projeto alimentava a expectativa de continuidade e consolidação do modelo de SAF no Alvinegro da Estrela Vermelha. Ao mesmo tempo, a temporada em campo era marcada por altos e baixos. A equipe conseguiu, como relembrado, alcançar a final do Campeonato Paraibano, mas foi derrotada em casa pelo Sousa, ampliando para seis anos a fila sem título estadual.
Copa do Brasil: alívio financeiro em meio à crise técnica
Se no estadual o resultado foi frustrante, a Copa do Brasil representou o melhor momento do clube na temporada. O Botafogo-PB eliminou Portuguesa e Concórdia e chegou até a terceira fase da competição nacional. Foi nesse contexto que o Alvinegro da Estrela Vermelha protagonizou uma das maiores vendas de mando de campo da história do futebol brasileiro.
O confronto contra o Flamengo, inicialmente previsto para o Estádio Almeidão, em João Pessoa, foi negociado por R$ 6,3 milhões para o Castelão, em São Luís. Alexandre Gallo foi o responsável por anunciar a mudança e defendeu a decisão com o argumento de que os recursos seriam fundamentais para investir na estrutura do clube.
Botafogo-PB x Flamengo no Castelão — Foto: Gilvan de Souza/CRF
Apesar das contundentes críticas por parte da torcida, principalmente em relação aos preços dos ingressos e à descaracterização do mando, a diretoria do clube da capital paraibana sustentou que a antecipação de receitas era necessária para fortalecer a base do projeto da Sociedade Anônima do Futebol (SAF) do Belo.
Série C: más atuações, três técnicos e o Z-4
A queda de desempenho do Botafogo-PB na Série C foi o estopim da crise técnica e institucional que culminaria na saída de Gallo. Após a perda do estadual, o técnico João Burse foi demitido. Em seu lugar, contrataram Antônio Carlos Zago e, posteriormente, Márcio Fernandes — ambos também demitidos após poucos jogos e campanhas ruins.
Com 11 rodadas disputadas, o clube soma apenas 10 pontos e ocupa a 17ª posição, dentro da zona de rebaixamento. A pressão interna e externa aumentando cada vez mais, e o desgaste da SAF com torcedores e com a associação que detém 10% das ações tem sido evidente a cada semana.
Alexandre Gallo, ex-CEO do Botafogo-PB — Foto: Cristiano Santos / Botafogo-PB
Choque institucional com o Conselho Deliberativo
Em junho, Gallo fez críticas contundentes às antigas gestões do Botafogo-PB, apontando que o clube “não tinha credibilidade no mercado” e que era preciso reconstruí-la. A fala repercutiu negativamente entre membros do Conselho Deliberativo, gerando notas públicas de repúdio e, posteriormente, a convocação de uma reunião entre os conselheiros e representantes da SAF.
O episódio marcou o ponto mais visível do distanciamento entre a nova estrutura empresarial e a associação. Ainda em junho, o CEO também revelou uma conversa dura com o elenco e prometeu reforços na janela de transferências, ressaltando que a folha do clube girava em torno de R$ 1 milhão mensais, sendo uma das maiores da Série C.
Ruptura com o investidor e fim da passagem
Na sexta-feira, 4 de julho, Alexandre Gallo deixou oficialmente o cargo de CEO da SAF do Botafogo-PB. A saída foi motivada por um desentendimento com Filipe Félix, agora único investidor do clube, após o afastamento de Lucas Franzato e Celso Colombo Neto da holding. Gallo também vendeu sua participação acionária na empresa, encerrando assim sua passagem pela Paraíba.
Botafogo-PB na Série C 2025 — Foto: Gabriel Silva/@gsilvafotos
Junto com ele, também deixou o clube o executivo de futebol Fausto Momente, considerado braço direito do ex-CEO e responsável direto pelas contratações do ano. A saída de ambos representa a terceira baixa relevante na constituição original da SAF, que agora será reestruturada sob comando exclusivo de Filipe Félix.
A primeira medida da nova gestão será definir um novo CEO e um novo executivo de futebol. Entre os nomes especulados no Alvinegro da Estrela Vermelha estão Lucas Magalhães, atualmente no Londrina, e Felipe Albuquerque, ex-Paysandu.
4 meses de gestão, promessas não cumpridas e um clube em crise
A passagem de Alexandre Gallo pelo Botafogo-PB durou exatamente quatro meses. Nesse período, o clube viu a SAF tomar forma, iniciou um processo de modernização administrativa, mas também enfrentou instabilidades constantes, como troca de investidores, demissões técnicas, críticas públicas e resultados abaixo das expectativas em campo.
Em abril, o muro da Maravilha do Contorno foi pichado com críticas à SAF — Foto: Reprodução / redes sociais
Apesar do bom desempenho pontual na Copa do Brasil e das receitas geradas com a venda de mando, o projeto liderado por Gallo não conseguiu entregar estabilidade nem competitividade consistente. Com o clube ocupando a zona de rebaixamento da Série C, o encerramento da sua participação no projeto ocorre de forma melancólica e sob forte pressão por mudanças.
Fonte: Globoesporte