
Valberto José
Jornalista, habilitado pelo curso de Comunicação Social da Universidade Regional do Nordeste (URNE), hoje UEPB. Colunista esportivo da Gazeta do Sertão e d’A Palavra, passou pelo Diário da Borborema e Jornal da Paraíba; foi comerciante do setor de carnes, fazendo uma pausa de 18 anos no jornalismo.
A casa das sete mulheres
Publicado em 17 de junho de 2025Embora parecesse ficção de novela, de filme ou de minissérie, foi pura realidade o lar da família Araujo de Almeida, no bairro de Santa Cruz, se tornar a casa das sete mulheres 42 anos depois, estanciada por minha mãe e seis das sete filhas que ela gerou. Valeu a pena vivenciar esse congresso familiar, sem os velhos problemas e superadas as dificuldades de então. Valeu a pena, mesmo sentindo a saudade das perdas, mesmo desfalcado do único mano que mora distante e não pôde vir.
Dona Cleonice concebeu 13 filhos e criou 11: dois – um casal – não resistiram à mortalidade infantil e morreram anjinhos. Desse modo, papai e mamãe cuidaram de 11 descendentes até o caçula tomar o seu destino eterno, na prematuridade de seus 28 anos.
A dispersão das mulheres começou por Socorro, que em 1983 rumou para Porto Velho, após terminar, na UEPB, o curso de Enfermagem.

Continuou com Albanete em 1989, chamada pela primeira a concluir o mesmo curso em Rondônia. Terminou com Maria da Guia, que se deixou guiar pelo coração, fisgada que foi por rapaz paraibano radicado em São Paulo, indo morar na capital paulista, após casar-se em 1994.
Portanto, desde a mudança planejada de Socorro que a casa de Dona Cleonice não voltava a ser a casa das sete mulheres. Nesse longo período, sempre teve a inviabilidade de uma não poder vir. Nunca as três. Planejou-se a reunião de todos os filhos na comemoração dos 80 de nossa mãe, mas a pandemia não deixou.
Este ano, com a decisão da vinda simultânea de Albanete e Da Guia, Socorro, que há anos mora em Santa Catarina, ficou “num pé e n’outro” para voltar à terrinha. De última hora, resolveu vir, deixando Dona Cleonice plena de felicidade. Pena que só passou uma semana, as outras duas permanecem aqui até o dia 20.
Eu, o primogênito da prole, vivenciei imensamente esse reencontro das manas. Para começar, fui com mãe, Albanete e Da Guia, buscar a “catarinense” em Recife. Nem o desarranjo intestinal em mim e em uma delas deletou a bondade da viagem de volta, quando chegamos pela madrugada.
Marcante mesmo foi o passeio em Areia, tão ansiado por elas desde que leram, aqui, meu relato de viagem com Margarida entre esta cidade e Serraria, em abril último. Três carros formaram a caravana, com 11 adultos e duas crianças, faltando uma das manas, que se rendeu à responsabilidade laboral.
Percorremos alguns dos museus locais, o engenho da Triunfo e saboreamos a gastronomia do lugar. Tudo na companhia de Dona Cleonice, que participou de tudo, na disposição admirável de seus 85 anos.
Mas como o melhor de uma viagem é chegar no aconchego do lar, bom mesmo foi vivenciar tudo isso na casa de nossa mãe. Os almoços (aquele com o tambaqui, o peixe, vindo de Rondônia… delícia!), os jantares, aqueles bate-papos de reminiscências com a presença quase maciça dos que aqui residem. Literalmente, por uma semana, a casa de Dona Cleonice voltou a ser a casa das sete mulheres.
