
Júnior Gurgel
Jornalista político, memorialista e Ghost writer. Ex- diretor de Jornais e Emissoras de Rádio na Paraíba, com atuações no Radiojornalismo.
PRESIDÊNCIA DA CÂMARA DOS DEPUTADOS: A MALDIÇÃO DA CADEIRA
Publicado em 12 de junho de 2025Desde o início da era Vargas em 1930 – golpe de Estado –, quartelada que tomou o poder, impedindo a posse de Júlio Prestes, legitimamente eleito com o dobro da votação de seu opositor, quarenta e três deputados federais ocuparam a presidência da Câmara dos Deputados. Cargo da mais alta relevância, terceiro na linha sucessória do Poder Executivo. Apenas quatro ex-presidentes conseguiram alçar voos mais altos. Os demais foram banidos pela vontade popular através das urnas, alguns terminaram no ostracismo, outros presos por corrupção, e os demais foram defenestrados pela história, esquecidos pelo povo.
O jovem Marco Antônio Maciel (37 anos), pernambucano, elegeu-se presidente da Câmara em 1977. Teve a coragem de enfrentar o mais austero dos presidentes militares, Ernesto Geisel, derrotando seu projeto de reforma política. O Congresso foi mais uma vez fechado. Geisel reabriu após impor o “pacote de abril” (1977). Marco Maciel era um dissidente da ARENA. Foi eleito governador do seu Estado. Em seguida, conquistou uma vaga no Senado da República, fundou o PFL – Partido da Frente Liberal, rachando a ARENA. Por duas vezes foi Vice-Presidente da República, e ainda voltou ao Senado. O Alzheimer o tirou da vida pública. Derrotou Paulo Maluf e Ulysses Guimarães, o “tetra presidente”, festejado na época pela grande mídia, Presidente da Câmara, Vice-Presidente da República, presidente do PMDB e da Constituinte. Construiu como bem quis seu caminho para suceder Sarney, após a Constituinte de 1988, nas eleições diretas de 1989.
Foi o antepenúltimo colocado, numa chapa com 17 candidatos. Encerrou sua vida pública sem mandato, vítima de um acidente aéreo, e até hoje não foram encontrados seus restos mortais. Ulysses nunca teve votos suficientes para se eleger senador ou governador de São Paulo. Por outro lado, Aécio Neves foi presidente da Câmara. Elegeu-se governador de Minas Gerais, Senador da República e candidato a Presidente numa eleição que foi derrotado pelas urnas eletrônicas. Michel Temer presidiu a Câmara por três vezes, foi Vice-Presidente por duas vezes, e Presidente após o impeachment de Dilma Rousseff.
Nos últimos 95 anos, 12 parlamentares nordestinos ocuparam a presidência da Câmara dos Deputados. Samuel Duarte (PB), Flávio Marcílio (CE); Marco Maciel (PE); Paes de Andrade (CE); Inocêncio Oliveira (PE); Luís Eduardo Magalhães (BA), Efraim Morais (trinta dias e já eleito senador); Thomaz Nonô (AL); Severino Cavalcanti (PE); Henrique Eduardo Alves (RN); Arthur Lira (AL) e o atual Hugo Motta (PB).
Henrique Eduardo Alves (44 anos no Parlamento), pai das emendas impositivas, perdeu duas campanhas para prefeito de Natal e uma para o Governo do Estado. Paes de Andrade perdeu uma eleição para prefeito de Fortaleza; Inocêncio Oliveira não teve votos suficientes para voltar ao Parlamento; Thomaz Nonô também não retornou à Câmara; Severino Cavalcanti renunciou para não ser cassado, e nunca mais voltou à Câmara; Arthur Lira luta para retornar em 2026, foi abandonado até pelo prefeito de Maceió, seu maior reduto; Luís Eduardo Magalhães, forte candidato à sucessão de FHC, faleceu precocemente no seu melhor momento político. Hugo Motta tem a chance de escolher ser um novo Marco Maciel, ou um Rodrigo Maia/Severino Cavalcanti. Sua mudança de perfil confunde hoje o eleitor paraibano.
Não precisa ser gênio para entender que um presidente da Câmara dos Deputados é o representante número um dos anseios populares. Quanto maior for sua distância do Palácio do Planalto, mais próximo fica do povão, que é quem vota e elege. Motta está se tornando um “estafeta” do Palácio do Planalto e STF. Brigando com seus pares, defendendo pautas impopulares. Impediu a PEC da Anistia, do roubo do INSS, não repudia o constante aumento de impostos, cerca-se de picaretas como João Dória; é o queridinho de Gleisi e todo o PT, quase joga Carla Zambelli na toca dos leões, e como Severino Cavalcanti está prestes a enfrentar uma obstrução total na pauta do Legislativo. Perde a cada dia a confiança dos que o elegeram, e se mostra encantado com as benesses, privilégios e tratamento “VIP” do Palácio do Planalto. Se não mudar de postura nos próximos seis meses encarnará Rodrigo Maia. Não faltaram milhões da Faria Lima para financiar sua volta ao Parlamento. Foi até Secretário de Estado do “trambiqueiro” João Dória. Mas, até hoje é odiado pelo povo. Trocou o mandato, pelo cargo de Presidente da Confederação Nacional das Instituições Financeiras do Brasil (CNF), executivo de fato da FEBRABAN. Porém, dinheiro não compra tudo. Ademar de Barros era o homem mais rico do Brasil. Tentou por duas vezes ser presidente da República. Em seu lugar, o povo preferiu um professor, Jânio Quadros. Liso, mas com a vassoura na mão prometendo varrer a corrupção.
