CLÃ CUNHA LIMA - Para Ronaldo, eleger Cássio foi ponto de partida para Campina definir seu novo líder: "foi a única campanha que eu tinha que vencer e vencer"

11/01/2022

No décimo artigo sobre o clã Cunha Lima, Júnior Gurgel conta um papo com o “ser” Ronaldo Cunha Lima, iniciado no saguão do aeroporto de Brasília e somente finalizado após umas doses de uísque em São Paulo, para onde os dois voaram naquele longínguo 1988.

A conversa fluiu com “vida”, “sonhos”, “desilusões”, “erros”, “decepções”..., coisas que o memorialista nomina de “sentimentos comuns dos mortais”.  

Gurgel buscou saber do poeta quais as dificuldades enfrentadas para ele emplacar o filho Cássio como candidato à sua sucessão na Prefeitura Municipal de Campina Grande, a partir da família.  

E Ronaldo não se fez de rogado na resposta:

- “Foi a única campanha que eu tinha que vencer e vencer. Campina definiria seu líder: restava eu e Enivaldo. Vital, depois de duas derrotas - principalmente a de 1982 - não se soergueria. Os Gaudêncios foram desterrados da vida pública em 1986. Não restavam mais herdeiros dos espólios de Argemiro, Cabral (anos 60). Cássio havia conquistado os jovens, obstinados, brigões; voto fiel e campanha 24hs nas ruas”.

Segue a íntegra do artigo:

A HISTÓRIA DO CLÃ CUNHA LIMA (parte X)

A campanha de 1988 - eleições municipais de Campina Grande - foi um dos maiores desafios da carreira política de Ronaldo Cunha Lima. Das três conversas que tivemos com o poeta - ao longo de sua existência e larga trajetória na vida pública - admitiu nesta ocasião que temeu uma derrota (1988). Tivemos inúmeros outros encontros. Mas, nestes três momentos coincidentes, o papo foi com o “ser” Ronaldo, vida; sonhos; desilusões; erros; decepções... Sentimentos comuns dos mortais.

O primeiro destes diálogos “desabafos” foi no aeroporto de Brasília (1989). Ainda minúsculo, e com pequena área de embarque. Nosso destino era São Paulo, voo às 07:30 da manhã. Chegamos às 06:00hs. Nos dirigimos ao café e lá estava Ronaldo (só). Coincidentemente sua viagem também era para São Paulo. Nos cumprimentamos, tomamos o primeiro cafezinho. Oferecemos um cigarro, dispensou. Estava tentando abandonar o tabagismo. Após o segundo café, resolveu fumar metade de um. Nos propôs trocar o café por uma dose do puro malte. Como o papo estava bom, aceitamos. Desde janeiro de 1987, quando deixamos as funções de Superintendente do Jornal da Paraíba, era a primeira vez que nos avistávamos. Estávamos no RN, muito embora finais de semana sempre em Campina Grande.

Sem rodeios, abordamos diretamente a eleição do ano anterior (1988) e a vitória de Cássio. Tínhamos curiosidade em saber das dificuldades enfrentadas para emplacá-lo como candidato, a partir da família. O mal-estar causado à casa de Ivandro... E como a cidade aceitou o processo sucessório dinástico, de pai para filho? “Foi a única campanha que eu tinha que vencer e vencer, respondeu o poeta. Campina definiria seu líder: restava eu e Enivaldo. Vital, depois de duas derrotas - principalmente a de 1982 - não se soergueria. Os Gaudêncios foram desterrados da vida pública em 1986. Não restavam mais herdeiros dos espólios de Argemiro, Cabral (anos 60). Cássio havia conquistado os jovens, obstinados, brigões; voto fiel e campanha 24hs nas ruas”.

Continuando acrescentou: “tomaram-me em 1986 a chance de disputar governo do Estado, na ocasião e idade ideal, aos 50 anos. Campina Grande foi humilhada com a decisão de Humberto, preferindo trazer Burity, que não tinha mais para onde ir. Espalharam um boato, sem fundamento, que ele seria o segundo na chapa para o Senado ao lado de Braga. Entrou em desespero, e sem ouvir mais ninguém, trouxe Burity. Desde 1930, Campina Grande arcou com o ônus de sustentar o Estado (impostos). Só teve um governador - nomeado como Interventor - Argemiro de Figueiredo. Nossa postulação ia ao encontro do grande sonho da cidade”. Fizemos uma pergunta alternativa: não teria sido mais fácil, ser o companheiro de chapa de Humberto? Respondeu-nos: “quem tinha esta bola de Cristal em Junho? Ele sequer admitia esta discussão. Iria convidar um “laranja” só para compor. Lembre-se - na boca do povo - uma vaga seria provavelmente do MDB, e outra indiscutivelmente de Wilson Braga”. José Carlos (São Braz) homem rico, ainda era o candidato ao governo. Milton Cabral, milionário, estava no comando do Estado. Os efeitos do Plano Cruzado ainda não eram perceptíveis. Só em meados de setembro, depois das chapas fechadas e em plena campanha, as pesquisas começaram a nos mostrar vitória geral. Até Lira!

Interferimos no comentário, para ratificar a surpresa. Esqueceram até o Projeto Canaã... A eleição fora atípica, pois seriam eleitos os Constituintes de 1988. Isto acarretou numa enxurrada de dinheiro (MDB), com candidatos milionários patrocinados por grupos empresariais, na busca de eleger seus “testas de ferros” - parlamentares “missão” - para defender seus grandes interesses na nova Carta Magna.

Embarcamos, trocamos de assentos para continuar a conversa. Desinibido com ajuda do whisky, voltamos a inquiri-lo: ano vindouro (1990) você disputará o governo? “Primeiro teremos que saber quem será o próximo Presidente. Mesmo assim, só se for pela oposição, contra Burity, e se Wilson Braga topar ser o Senador” ... Deu uma longa gargalhada. Continuou: “o desastre da gestão (Burity) não tem mais conserto. Teceu comentários sobre sua relação com o governador, que era formal, sofrível e sem empatia mútua. Funcionava através de “recados”. Nunca lhes deu oportunidade de discutir amplamente sobre “Campina Grande”, projetos e perspectivas. Não ficaria sem mandato, iria para a Câmara, ocupar (1990) a vaga deixada por Cássio. Quanto ao sonho de um Cunha Lima governar a paraíba, Cássio o realizaria. Sobre o “vazio” ou desaceleração repentina quando apeou-se do Poder, ele concordou. Mesmo ainda cedo, já tinha os sabujos da casa de Cássio, e os nostálgicos queixosos da casa de Ronaldo.

Trechos destas longas conversas serão inseridos oportunamente em outras narrativas. Chegando em São Paulo, aeronave já taxiando na pista para o desembarque, perguntamos finalmente ao poeta se ele tinha noção do feito histórico da vitória de Cássio. “Não entendi, como assim”? Na história das democracias, nunca um pai passou um governo diretamente para um filho. Nos Estados Unidos - 200 anos de democracia - só John Adam – segundo presidente – viu seu filho John Quincy Adam ser eleito 20 anos depois, sexto presidente. George W. Bush foi o segundo, mas, onze anos após este dia, em 2000. Isabelita Perón foi presidente da Argentina, porque era a vice de seu esposo, Juan Domingues Perón. Faleceu um ano depois de eleito (1973). O "Perón" patoense Geraldo Medeiros, passou o mandato para sua esposa Dra. Geralda (1988). A sorte tem sido sua companheira inseparável poeta...Inesperada eleição de vereador, dois mandatos consecutivos como deputado estadual; o “racha” de Vital em 1968, Vital novamente “rachando” em 1982, e as disposições transitórias de Sarney. Conhece outro exemplo no Brasil ou no mundo, de pai passar o mandato para um filho? “Não tinha enxergado por este lado... Ficou alguns segundos reflexivo e disparou: “você esqueceu Burity? Este tem sorte. Foi acordado na madrugada pelos Generais, recebendo o presente de governar a Paraíba. Como deputado federal, um fiasco, não disputaria a renovação de seu mandato (1986). Humberto o procurou e o pôs no governo novamente. Tudo isto sem o mínimo esforço. Como você define isto, sorte?

O misterioso destino e seus revezes, naquele momento, não permitia vislumbrar quaisquer possibilidade de Ronaldo Cunha Lima se eleger governador, apenas um ano e oito meses depois deste encontro (1990). Mas, talvez estivesse “escrito nas estrelas”.   

Fonte: Da Redação




Comentários realizados

  • Essa matéria ainda não tem comentários realizados e você pode ser o primeiro a comentar.

Deixe seu Comentário

Seu endereço de e-mail é de preenchimento obrigatório, mas não se preocupe que não publicaremos. Seu comentário será moderado pelo administrador do site e só será divulgado após isso.*


Outras Notícias