CLÃ CUNHA LIMA - Acreditando que Ronaldo e Vital do Rego eram "comunistas" por trás da candidatura de Juracy Palhano a prefeito em Campina comandante do Exército fraudou eleição dando vitória a Evaldo Cruz

30/11/2021

No segundo artigo da série “A história do clã Cunha Lima” Junior Gurgel faz uma revelação bombástica sobre a eleição municipal disputada entre o professor Juracy Palhano Freire e Evaldo Cavalcante Cruz, que venceu o pleito de modo inesperadamente estranho.

Diz o articulista que em sua última visita ao Diário da Borborema, em 1975, o Major Câmara, que comandava a guarnição local do Exército em Campina Grande, foi se despedir já que havia sido transferido para Natal.  

Em conversa com o superintendente do jornal, Aécio Diniz, e desconhecendo a história do mesmo e sua ligação com Juraci Palhano, o militar fez um longo relato/desabafo sobre o combate ao comunismo que realizou na cidade.  

A narrativa culminou na confissão: “o tal do Juraci estava eleito prefeito... Uma comissão de “Senhores Responsáveis”, defensores da gloriosa Revolução, foi até o Quartel no final do primeiro dia de apuração dos votos, e nos informou quem estava por trás do tal candidato: Vital do Rego, os Cunha Lima...”.   

A apuração dos votos, que demorava naquela época em torno de três dias, já mostrava Juracy vencendo Evaldo com boa margem de vantagem, mas ele acabou sendo derrotado com a interferência do representante das Forças Armadas.

Junior Gurgel assim relata, entre aspas, a história contada por Major Câmara ao incrédulo Aécio Diniz:  

- “Naquela noite mandei uma escolta trazer até o Quartel o presidente da Junta Apuradora, e fui direto: não quero saber de votos. O prefeito é Evaldo Cruz. Se o resultado for outro, prendo todos vocês comunistas”, teria ordenado o major.

Segue a íntegra do artigo, que também pode ser lido na grade de colunistas:

A HISTÓRIA DO CLÃ CUNHA LIMA – PARTE II

Ex-prefeito Evaldo Cruz estava encerrando sua gestão (1976). Eleito em 1972, sucedeu Luís Mota Filho - segundo interventor nomeado pelos Militares - para substituir Ronaldo da Cunha Lima (cassado) e seu vice Orlando Almeida, impedido de assumir. Na realidade o eleito (1972) tinha sido Juracy Palhano. O pleito foi "tomado" pelo Major Câmara, então comandante da 5ª Cia de Infantaria, hoje 31º Batalhão de Infantaria Motorizado, aquartelada aqui em Campina Grande.

Após o traumático pleito de 1968, a inesperada derrota do Senador Argemiro de Figueiredo (1970), falecimento de Seu Cabral e as cassações de Ronaldo e Vital do Rego, a Rainha da Borborema vivia seu “saara” político. Luizito Mota (1972) indicou Evaldo Cruz, então Diretor da CANDE (fábrica de tubos que concorria com a Tigre), empresa de Humberto Almeida, irmão de Orlando Almeida, o vice que não assumiu. Parecia ser candidatura única...Até o dia em que o então Vereador Everaldo Agra começou a anunciar que seria candidato para enfrentar Evaldo.

Dois empresários emergentes entraram na disputa: Antônio Gomes, como vice de Evaldo Cruz; Juraci Palhano, bastante conhecido na cidade como Professor, ex-radialista, ex-funcionário do Banco do Brasil, proprietário de Colégios, agropecuarista e investidor imobiliário na cidade...   

Convidado por Everaldo Agra – conversa intermediada pelo Jornalista Aécio Diniz - inverteu os papéis: ele seria "cabeça de Chapa” e Everaldo vice. Foi uma das mais belas campanhas da cidade. Contagiante, a partir do jingle de Juracy. Em noventa dias, saíram do zero e chegaram ao topo.

Em sua última visita ao Diário da Borborema (1975), Major Câmara foi se despedir. Havia sido transferido para Natal. Desconhecendo a história de Aécio Diniz e sua ligação com Juraci Palhano, fez um longo relato/desabafo sobre o combate ao comunismo que realizou na cidade. A narrativa culminou na confissão: “o tal do Juraci estava eleito prefeito... Uma comissão de “Senhores Responsáveis”, defensores da gloriosa Revolução, foi até o Quartel no final do primeiro dia de apuração dos votos, e nos informou quem estava por trás do tal candidato: Vital do Rego, os Cunha Lima... E citou uma lista de cassados”.  Finalizou: “Naquela noite mandei uma escolta trazer até o Quartel o presidente da Junta Apuradora, e fui direto: não quero saber de votos. O prefeito é Evaldo Cruz. Se o resultado for outro, prendo todos vocês comunistas”.

No primeiro dia de apuração, Juraci estava dando 2x1 em Evaldo Cruz. No dia seguinte o quadro se inverteu. Teve urnas no bairro da Liberdade - maior reduto de Juraci e Cunha Lima - que não foi contabilizado um único sufrágio em seu favor. Terminada a apuração, Evaldo Cruz saiu em passeata. Os eleitores de Juraci também. A passeata de Juracy (derrotado) tinha o dobro de pessoas que a do eleito. William Tejo e Tarcísio Cartaxo, perplexos com o fato que testemunharam, sempre falavam que fora algo inédito - treta descarada - que jamais seria visto na história política da Paraíba.

Voltando às eleições de 1976, Evaldo Cruz - amigo e respeitado pelo então governador Ivan Bichara Sobreira, entregou-o à tarefa de escolher o seu sucessor. Ligado ao Grupo da Várzea, o consenso foi indicar Enivaldo Ribeiro, deputado estadual de primeiro mandato, eleito em 1974. Carismático, popular, Enivaldo pôs imediatamente a campanha nas ruas, pois já tinha um adversário: Juracy Palhano, que vinha para o tira-teima. Mas, o MDB preferiu sair do anonimato e lançar seu próprio candidato. Não iriam mais apoiar Juraci (Arena 2) sublegenda. O nome escolhido – julgamos que forçado – foi o de Ivandro Cunha Lima, suplente de senador de Rui Carneiro.

Como conversávamos diariamente com Aluísio, não sentimos entusiasmo pela escolha de Ivandro. Sensato, Aluísio enfatizava que o tempo era outro, diferente de 1968. Enivaldo vinha com a máquina do governo. Andava rua acima, rua abaixo, puxado por um cordão de bêbados, povão pedinte; entrava em todas as casas... Ivandro era um gentleman, cordial; cavalheiro; todos na cidade gostavam dele, não tinha inimigos, nem sequer quem o invejasse. Entretanto, não tinha o perfil de Enivaldo e do próprio Ronaldo, na facilidade de se envolver com o povão. Jamais iria fazer um discurso contundente contra o “Regime”. Era conciliador e estava correndo o risco de ter um grande prejuízo material: dividirem seu Cartório - até hoje - o único da Cidade de Registros. A lucidez de Aluísio era impressionante.

Passamos a conversar nos finais de tarde, em sua loja na rua João Pessoa. Tinha deixado de frequentar o “cafezinho”. Só voltaria após a campanha.  Temperamento forte e pavio curto, não levava desaforo para casa. Segundo Aluísio, “Ivandro estava passando por uma provação. Deus vai escolher a sua melhor derrota. Perguntamos sobre Fernando. Tem a mesma opinião que a minha, respondeu. Mas, não pôde deixar de atender a Rui Carneiro. Realmente Fernando veio a Campina Grande só na última semana da eleição. Iria conversar com Juraci Palhano, para que o mesmo desistisse de sua candidatura e viesse apoiar Ivandro. A turma do boato espalhou que Fernando veio “comprar” Juraci. Episódio que feriu os brios de Juraci, que sequer aceitou o encontro. Foi até o final, dividindo votos da oposição. Enivaldo venceu. Ivandro foi sossegar. Mas, o projeto de Fernando permanecia mais vivo que nunca. Seria posto em prática apenas dois anos depois, a partir de 1978.

Fonte: Da Redação




Comentários realizados

  • Essa matéria ainda não tem comentários realizados e você pode ser o primeiro a comentar.

Deixe seu Comentário

Seu endereço de e-mail é de preenchimento obrigatório, mas não se preocupe que não publicaremos. Seu comentário será moderado pelo administrador do site e só será divulgado após isso.*


Outras Notícias