CLÃ CUNHA LIMA - Segundo Gurgel, Fernando ("cérebro" da família) era um otimista que transmitia segurança

02/12/2021

No terceiro artigo sobre a “história do clã Cunha Lima”, o memorialista Júnior Gurgel mostra, mais uma vez, que na verdade o cérebro da família era Fernando, citado por ele como “um otimista que transmitia segurança”.

Desta vez, Júnior Gurgel conta o seu primeiro encontro com Fernando Cunha Lima, quando a convite de Aluísio foi recepcioná-lo no aeroporto João Suassuna, onde aterrissou em seu jatinho particular acompanhado do então deputado federal Humberto Lucena e do ex-ministro Abelardo Jurema.

- “A presença de Fernando era muito marcante. Possuidor de carisma tão impactante quanto Ronaldo, porém se expressava de forma absolutamente distinta. Dominava o ambiente, centralizava a discussão...Todos queriam apenas ouvi-lo”, relembra o jornalista.  

Naquele dia Fernando, já na granja de Aluísio nos Cuités explanou sobre geopolítica, macroeconomia; política internacional; a acelerada falência da Rússia e leste Europeu - fato ainda ignorado por todos - e o “milagre Japonês” ... Na época, o Japão estava para o mundo como hoje está a China. Era a segunda maior economia do Ocidente.

Segue a íntegra do terceiro artigo:


HISTÓRIA DO CLÃ CUNHA LIMA (parte III)                                                           

O ano de 1977 foi marcado por grandes inquietações políticas no cenário nacional. No dia 1º de Abril, o presidente Ernesto Geisel surpreendeu o país, fechando o Congresso Nacional. O AI-5 - arma de defesa dos Militares - sem uso desde 31/12/69, foi acionado para alterar a legislação. Fazer mudanças no Poder Judiciário - impedidas pelo Senador Paulo Brossard - e uma Emenda Constitucional que ampliava vagas na Câmara dos Deputados – beneficiando Estados do Norte/Nordeste – criando também mais uma vaga para o Senado (por Estado) através das eleições indiretas, juntamente com governadores ano seguinte (1978).  O episódio ficou conhecido como “pacote de abril” e os novos Senadores, “qualificados” pejorativamente pela mídia como “Biônicos”.

Retalhos Históricos de Campina Grande: MEMÓRIA: Há Exatos 35 Anos, "Morria" Fernando  Cunha Lima
"fotografia dos arquivos do blog ‘Retalhos Históricos de Campina Grande‘
 

Em meio a todo o pandemônio, Aluísio Cunha Lima nos convidou para ir ao aeroporto João Suassuna receber Fernando, que vinha no seu próprio Jatinho, acompanhado do deputado federal Humberto Lucena e do ex-ministro Abelardo Jurema. Nos dirigimos para uma granja, de propriedade de Aluísio, localizada nos Cuités. Hoje não sabemos mais se ainda é granja, ou área urbana. A presença de Fernando era muito marcante. Possuidor de carisma tão impactante quanto Ronaldo, porém se expressava de forma absolutamente distinta. Dominava o ambiente, centralizava a discussão...Todos queriam apenas ouvi-lo. Explanou sobre geopolítica, macroeconomia; política internacional; a acelerada falência da Rússia e leste Europeu - fato ainda ignorado por todos - e o “milagre Japonês” ... Na época, o Japão estava para o mundo como hoje está a China. Era a segunda maior economia do Ocidente.

Um otimista que transmitia segurança. Escutamos e ficamos boquiaberto com seus relatos, sempre citando opiniões e pontos de vistas de figuras respeitadas como Celso Furtado, de quem era amigo pessoal, Oscar Niemeyer; Adolpho Bloch – que o tinha como um filho – Condessa Pereira de Carneiro, dona do Jornal do Brasil; Aureliano Chaves – então governador de Minas Gerais, eleito vice-presidente de João Batista Figueiredo nas eleições indiretas de 1978... Ao cabo de três horas de conversa, quando todos já estavam saindo, Aluísio nos chamou e se dirigiu a Fernando: “este é o amigo que te falei...” Memória privilegiada, Fernando respondeu de imediato, o do Rio Grande do Norte? Sim, respondemos. Conhece Cortez Pereira? Não, apenas sabemos que foi governador e misteriosamente afastado.

Ele ainda conseguiu implantar o projeto “Serra do Mel”, comentou Fernando. Apesar de ser Potiguar, morava em Campina Grande, e não sabia que projeto era este. Muito tempo depois, tomamos conhecimento. Fernando junto com Cortez, trouxeram para o Rio Grande do Norte um grupo de investidores judeus, aproveitaram uma área inabitada, das mais críticas do semiárido - apesar de se localizar a 50 km do litoral – consideradas terras devolutas da União. Cortez desapropriou e começou a instalar um "kibutz" no estilo Israelita. Hoje Serra do Mel é um município, e o maior produtor de castanha de caju do RN, que é o maior produtor do país. Os judeus transferiram apenas Know-how. Não investiram porque havia impedimentos burocráticos.

Nosso primo Bandeira (o General), continuou Fernando, foi quem fez a transição suave, sigilosa e sem danos morais para Cortez. Não foi cassado, afastou-se. Indagamos se o problema tinha sido corrupção, pois Cortez era Udenista e tinha respaldo do líder dos Militares no Senado, Dinarte Mariz. “Briga de cachorro grande”, respondeu Fernando. Nossa última pergunta foi sobre o “pacote de Abril”: haverá retrocesso? A pergunta era pertinente, estávamos em maio de 1977. “Não. Quem foi cassado? Ninguém. Quanto tempo durou o recesso? Duas semanas. Geisel tem compromissos com Jimmy Carter e a comunidade financeira internacional. O Exército voltará aos Quartéis até 15 de março de 1979”. Os acontecimentos ocorreram exatamente da forma que ele discorreu. Isto não é “previsão”, nem “bola de cristal”. Estava tudo planejado. E fica mais que explícito, sua participação nos bastidores da “transição”.

Noventa dias após o fim do recesso do Congresso (1977) no dia 20/07/1977 morre o Senador Rui Carneiro, líder do MDB no Estado e um dos mais expressivos políticos paraibano no Congresso Nacional. A perda de seu irmão Janduí, deputado federal de 1945 até 07/06/1975 – quatro meses após o início do seu oitavo mandato, o tinha deixado profundamente abalado. Foram dois irmãos no Congresso por três décadas. Janduí na Câmara e Rui no Senado. Rui e Janduí tinham sido reeleitos em 1974. O suplente Otacílio Queiroz concluiu o mandato de Janduí. Outra perda irreparável do MDB, setembro ainda do fatídico 1975, foi do deputado federal Petrônio Figueiredo, filho do ex-senador Argemiro de Figueiredo. Concluiu seu mandato Arnaldo Lafayette, suplente com 1.700 votos. Quem era o suplente de Rui que continuaria em seu lugar no Senado até abril de 1983? Ivandro Cunha Lima. Voltamos a indagar: destino ou acaso? Ivandro perdeu a eleição municipal de 1976. Se tivesse sido eleito, não teria ocupado por cinco anos uma cadeira no Senado da República, conquistando inclusive o ambicionado cargo de 1º Secretário da Mesa Diretora, cargo que administra a Casa. Fernando fortaleceu-se, e se tornou o herdeiro natural dos ideais de Rui Carneiro.   

Fonte: Da Redação




Comentários realizados

  • 30/11/2021 às 13:02

    Marcos Junior

    venho acompanhando essa história. gostaria de parabenizar o portal pelo rico material. não falando de política, mas a história de Campina Grande e das famílias tradicionais da nossa política deveriam ser divulgadas/contadas por nossos professores e mestres. Parabéns de verdade ao portal.

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