Prima de colunista d‘APALAVRA conta "história" do rapaz soterrado em Pipa e dá testemunho da grandeza da vítima

20/11/2020

A maquiadora Jussara Araújo, prima do colunista d’APALAVRA Valberto José, mora em São Paulo e foi amiga de Hugo, o rapaz soterrado com a mullher e um filhinho pela falésia que desabou em Pipa.

Em texto publicado na internet, ela conta a história de Hugo, que conheceu em Pipa anos atrás quando passava por delicado momento de sua vida. Vale a pena ler:

A HISTÓRIA DE HUGO

Hoje eu gostaria de contar para vocês a história do Hugo.

Conheci o Hugo há alguns anos, na cidade de Pipa, em um momento delicado da minha vida. Uma fase de pouca esperança, de dureza, de falta de perspectiva —  não se assustem, todas as pessoas passam por isso, e a consequência de ter calma nesses momentos é uma significativa renovação de alma e um espírito mais forte.

Fui apresentada a ele pela minha prima, que compartilha comigo sentimentos muito parecidos diante da vida. O que dói nela, dói em mim. O que a alegra, me alegra também. Forte conexão. Ela e o Hugo se conheceram pela internet, depois que ele emitiu um pedido de ajuda para a cachorrinha dele, a Brisa. O Hugo e a Brisa dividiam o espaço numa Kombi para viajar pelo país, sem rumo. Quando ela ficou doente, Hugo foi levado a estacionar de vez em Pipa.

Hugo tinha um futuro promissor na carreira onde morava antes. Mas decidiu largar tudo e buscar a si mesmo em uma viagem por vários países e, depois, pelo Brasil, ao lado da melhor amiga canina. Passou dificuldades no caminho, teve dias que ficou até sem comer. Mas o que faltou de riqueza material, sobrou na alma. Hugo era rico de fé, de vida, de pureza.

Paro na história aqui para comentar algo com vocês: não os incentivo a largar tudo o que vocês construírem materialmente falando. Ao contrário, lutem muito pela sua prosperidade. Apenas não permitam que essa busca endureça seus valores e esfrie seus sentimentos e propósitos de vida. Nenhuma vida é completa se é preenchida somente por dígitos, e o mais especial da vida reside no que vocês cultivam em si e nas suas relações.



 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Continuando no Hugo… A Brisa, infelizmente, não resistiu. Ainda cheguei a conhecê-la (o que sobrou do encontro foi essa foto minúscula de cima). Na época, estava doentinha já, e pouco tempo depois deixou o Hugo. Ele, em vez de se entristecer por completo, agradeceu. Agradeceu pelo tempo que teve com ela, pela amizade. Prestou suas homenagens, derramou algumas lágrimas, mas honrou o tempo juntos continuando a vida com alegria.

E essa foi a primeira lição valiosa que o Hugo me deixou: a gratidão. Por tudo. Porque até as experiências ruins da vida são indispensáveis: elas nos ajudam a evoluir, elas nos fazem crescer, nos tornam melhores – basta que não as tornemos um trauma, um ressentimento, uma soberba, um gesso.

Hugo precisou de um tempo, ficou em Pipa. Preencheu o coração com novos amigos, novos projetos, dividiu histórias, foi feliz. Encontrou a belíssima Stella. Amou. Teve um filho, chamado Sol. Tinha até um casal de cavalos, que domou sem violência, só com paciência e respeito.

Hugo e Stella tinham a mesma sintonia. Acreditavam na vida, no amor, na fé. Eram gratos, especialmente pelo encontro um do outro. Tinham suas diferenças, mas valorizavam até elas. Olhavam-se com admiração, sem medo, sem resistência, sem amarras, sem tentar mudar um ao outro. Desafiavam-se com humor. Alimentavam a união com elogios, com presença, com suavidade. Sabiam que, um ao lado do outro e ao lado da família, dos amigos e dos animais que amavam, poderiam conquistar qualquer coisa.

Eu os acompanhava pelas redes sociais com carinho. Cada postagem deles causava um quentinho no coração. Leveza. Simples, assim, como eles eram.

Ontem, na hora do almoço, vi uma reportagem sobre uma família que morreu na queda de uma falésia na praia. Pensei neles, depois esqueci. Horas depois, minha prima ligou. Partiram todos juntos.

A história poderia ser apenas triste. Mas quero que vocês pensem por outro lado. Hugo e Stella confiavam tanto na vida que tudo se encaixou. Ficaram juntos até na partida e, se os conheço bem, tenho certeza de que ficaram gratos por isso. O Hugo podia ter escolhido qualquer caminho, mas escolheu aquele, e confiou até o fim. Não reclamou, não tentou controlar cada passo. Aceitou ônus e bônus da própria escolha. Recebia de braços abertos o acaso, tinha fé.

Nós devemos nos esforçar para prever e ter controle sobre nossas coisas, mas nem tudo é possível assim e, pela minha experiência, os acasos da vida são os que nos proporcionam os melhores avanços. Isso porque nossa visão é limitada, e nem sempre alcança as melhores perspectivas. A vida tem suas surpresas, e o que faz a grande diferença é como superamos obstáculos. Não é o tombo, é o ato de levantar. Não é somente o objetivo, é o caminho.

A vida do Hugo, da Stella e do Sol foi interrompida inesperadamente, em uma circunstância tão peculiar que chega a ser ridícula. E qualquer situação nessa vida pode mudar um caminho.

Se Hugo fosse apenas bem-sucedido financeiramente, como poderia ter sido, a situação inesperada poderia ter ido buscá-lo em outro local, realizado na paz da solidão e na abundância material. Mas ele fez a escolha de seguir o que acreditava, e essa escolha o levou até lá. Então, ele foi surpreendido pela situação inesperada do jeito que escolheu viver, na paz da companhia e na simplicidade, rico de experiências e rico de amor.

E valeu a pena.

Ontem chorei. Hoje acordei em paz.

Acordei na certeza de que aquilo que os outros podem rejeitar e considerar loucura, fraqueza ou defeito em nós, pode ser exatamente o nosso grande trunfo e diferencial. Pode ser justamente aquilo que nos torna especiais. As pessoas classificam os outros segundo as próprias experiências, portanto, a opinião delas é limitada.

Acordei ciente de que a vida me apresenta tudo o que se conecta às minhas intenções e energia, ela me ensina o que preciso aprender para chegar aos meus objetivos, e os caminhos ficam mais claros com o tempo, conforme a gente avança. Posso aprender novas habilidades, devo estar aberta ao que, em princípio, não faz muito sentido para mim. Pontos de vista diversos são saudáveis, e as diferenças podem conviver. Porém, algo é certo: acordei na certeza de que me afastar da minha própria essência e permitir que me afastem disso é me distanciar do meu caminho, do meu propósito, do meu sucesso, da minha paz e daquilo que me torna especial e feliz.

A minha mensagem hoje para vocês, é esta: creiam em si, creiam na vida, tenham fé. Busquem o que quiserem buscar, façam seus planos, tenham cautela. Mas não em excesso. Salpiquem sua vida de diversas referências, porque todas elas juntas, somadas à sua sensibilidade, racionalidade e visão, vão gerar uma combinação que mais ninguém vai ter. Esse é o seu diferencial e potencial.

Hugo, Stella e Sol definitivamente não eram somente uma notícia triste de jornal.

Hugo não deixou grandes patrimônios. Mas deixou uma contribuição imensa a todos aqueles que tiveram a oportunidade feliz de conhecê-lo.

Sejam gratos. Sempre e por tudo.

Jussara.”

Fonte: Da Redação




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