A triste história de um ritual para curar COVID-19 com visões da Virgem Maria, reza e criança amarrada

10/05/2021

As imagens são chocantes. Numa comunidade rural, crianças choram e gritam enquanto adultos ao redor, rezam. Outras pessoas tentam impedir a ação e são afastadas pelo grupo que realizava o ritual. Vídeos dessas cenas foram enviados ao Instagram do ‘Paraíba Feminina’ em meados de 20 de abril, mas o portal preferiu não publicar.

O fato aconteceu em Vila do Treme, comunidade rural do município de Bragança, no Pará, e as cenas rodaram o país. Uma mensagem que circulava nas redes sociais à época, dizia que se tratava de um ritual para acabar com a Covid-19 e que 2 crianças seriam sacrificadas.

A Polícia Civil resgatou as três crianças, que foram levadas à um abrigo, e as investigações começaram.

Pobreza, ignorância, fanatismo religioso e histeria coletiva que por muito pouco, não teve um desfecho trágico.

Vamos aos fatos:


Tudo começou quando uma das crianças, uma menina de apenas 8 anos, afirmou ter recebido uma mensagem da Virgem Maria. A orientação era construir uma arca igual à de Noé e rezar para Nossa Senhora, que intercederia junto a Deus, para o coronavírus ser expulso do planeta. Considerando-se escolhida de Deus, a família da menina seguiu as instruções da criança como pôde. Um círculo desenhado no chão fez as vezes de arca, mas a parte da oração foi cumprida à risca.

Seriam necessárias 24 horas de reza diária e os adultos exigiram que até as crianças virassem a madrugada em vigília e jejum. Nem um menino com problemas de saúde mental foi poupado. Ele teve os braços amarrados quando se recusou a orar. No ápice do ritual, uma garota se colocou de braços abertos na frente de uma cruz, imitando a crucificação de Jesus. A essa altura, um bebê de colo chorava de fome. A polícia chegou antes que a revolta dos vizinhos se materializasse em violência. Juntando avós, pais e tios das crianças, houve nove indiciamentos por maus-tratos.

REVELAÇÕES

A história de fé começou em janeiro, quando a menina de 8 anos relatou que Nossa Senhora apareceu para ela pedindo orações, segundo a delegada Luciana Tunes, da Delegacia de Atendimento à Criança e ao Adolescente de Bragança. A policial afirma que a garota contou o teor da conversa com a santa aos parentes. Somente as mulheres da família deram ouvidos à revelação e começaram a rezar.


Mas as aparições continuaram e outra menina, de 9 anos, também passou a relatar visões da Virgem. A situação mudou de patamar em 11 de abril, de acordo com a delegada. Nesse dia, Nossa Senhora “surgiu” de novo e avisou que tinha uma mensagem de Deus. A família foi escolhida para livrar o mundo do mal, a covid-19.

Além da recompensa conjunta à humanidade com o fim da pandemia, os parentes receberiam uma graça por construir a arca e orar por uma semana. O garoto doente seria curado. Desta vez, a adesão foi total.

O círculo representando a arca foi desenhado no chão do terreno da casa dos avós da garota. Próximo da “arca” foi fincada uma cruz num monte de areia e as ave-marias se sucediam, intercaladas por um ocasional Pai-Nosso. A delegada contou que os familiares fizeram questão de espalhar a notícia das visões e falar em grandes feitos. “No dia 12 [de abril], uma das mulheres começou a divulgar para a comunidade que aconteceria um milagre”, afirmou.

As investigações apontaram que, conforme o ritual avançava, a família entrou em estado de transe. Os adultos faziam jejum e autorizavam as crianças a fazer no máximo duas refeições por dia. As orações não podiam ser interrompidas. A vigília da madrugada começava às 19h e ninguém arredava o pé até as 5 horas da manhã.

“A investigação constatou que as crianças passavam a noite orando e dormiam alguns momentos do dia. Isto ocorreu do dia 12 para 13 de abril e de 13 para 14 de abril”, disse a delegada.

A situação alcançou tons de fanatismo. O menino não quis mais participar do ritual religioso e teve os braços amarrados à frente do corpo, como quem é algemado. A delegada ressalta que o nó era frouxo e não deixou marcas ou ferimentos. “Passaram uma corda fina como um barbante em volta dos braços. Era folgado, mas foi um dos atos de maus-tratos porque eles [adultos], de alguma forma, expuseram essa criança a risco.”

Naquela manhã de 14 de abril, a menina de 8 anos pediu uma bata batismal branca com duas fitas vermelhas, encostou as costas na cruz e abriu os braços, simulando o sacrifício de Cristo. Familiares usavam capas e uma tia interpretava Nossa Senhora, contou o conselheiro tutelar Jorge Sousa.

Nesse estágio da adoração à santa, terços e crucifixos eram empunhados durante as ave-marias, repetidas sob o sol da Amazônia. O bebê chorava tanto que os vizinhos escutaram e se incomodaram. O comportamento destruiu a reputação da família, muito considerada na Vila do Treme até então.

Todos eram católicos praticantes e alguns integravam a Pastoral da Criança. A reportagem do UOL procurou a catedral de Bragança para saber qual avaliação a liderança religiosa faz do episódio, mas o padre não quis comentar o assunto.

O INÍCIO DO CAOS

Irritados, os vizinhos cercaram o local onde se desenrolava o ritual, no terreno da casa dos avós das crianças. Mensagens chegavam ao Conselho Tutelar e à Polícia Civil. “A vizinhança estava irritada e o último áudio que chegou falava que se o Conselho [Tutelar] não fosse com polícia à comunidade, eles estavam preparados para invadir e tirar as crianças”, relatou Jorge Souza.

A polícia chegou e encontrou uma situação quase fora de controle. O tio das meninas disse aos agentes da Polícia Civil que conversaria depois da oração. Falava com um bebê de 1 ano e dois meses numa mão e terço na outra. Ele explicava que era importante priorizar a reza. “É pelo fim da pandemia, nós estamos orando aqui para vocês. Para proteger vocês”, justificou antes de engrenar um Pai-Nosso.

Uma conselheira tutelar se aproximou com jeito e pegou o bebê dos braços dele. O ritual se transformou numa quase tragédia. A mãe do bebê correu para pegar o filho, mas os parentes a chamaram para continuar no círculo de oração.

ESCALADA DA VIOLÊNCIA

A liberação do bebê encorajou um casal de vizinhos a caminhar até a cruz fincada sobre um monte de areia. Vestida com uma bata branca, no papel de Jesus crucificado, a garota que tinha visões de Nossa Senhora resistiu a ser arrancada do lugar. Uma mulher da família começa a gritar: “Maria sempre vence e o inimigo sempre perde”.

Acuada, a família entrou na casa dos avós com uma criança que ainda não tinha sido resgatada. A vizinhança queria invadir e os agentes da polícia pediram que se afastassem, para ficarem no local somente eles e os conselheiros tutelares. Uma negociação para entrar no imóvel começou enquanto a turba defendia botar porta abaixo e prender todo mundo.

A família se escondeu em um dos quartos, embaixo de um pano branco com uma cruz. O tecido fino permitia ver os vultos agachados ao redor da criança e a ave-maria continuava. Um policial puxou a ponta do pano e ouviu impropérios. “Vocês não são os donos do mundo”, vociferou uma mulher. O avô estava mais calmo e entregou a menina. A confusão estava acabada. Começava a investigação policial.

As crianças passaram por exame de corpo de delito, que não apontou ferimentos, e foram levadas para um abrigo da cidade. Todas foram incluídas na rede de proteção da Justiça. Três adultos prestaram depoimento, ainda naquele 14 de abril. Ninguém foi preso.

A investigação do caso contou com 27 depoimentos, entre crianças, adultos, vizinhos e conselheiros tutelares, e análise de gravações de celular. Além de determinar responsabilidades, era preciso separar os fatos dos boatos. Na internet se espalhava a versão de que havia livros de ocultismo e feitiçaria na casa e o ritual terminaria em sacrifício das crianças.

Vizinhos declararam à Polícia Civil informações neste sentido, mas a delegada afirmou que nada foi provado na investigação. Mas Tunes declarou que a liberdade religiosa avançou sobre o direito das crianças terem acesso à alimentação e serem criadas num ambiente sadio. Por este motivo, os nove adultos foram indiciados por maus-tratos e responderão em liberdade a eventual processo.

Fonte: “Paraíba Feminina” com UOL




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