Colunista Valberto José

Jornalista, formado pela Universidade Regional do Nordeste (URNE), hoje UEPB. Iniciou como colunista na Gazeta do Sertão e trabalhou no Diário da Borborema e Jornal da Paraíba, colaborou na versão impressa d`A PALAVRA.

  • PROSA DE FREGUESIA - Duas pandemias (XVIII)

    18/02/2021

    A sílaba inicial da palavra pandemia sugere coisas boas, gostosas, ritmos musicais e dançantes, e até competições esportivas; as três sílabas finais propõem exercícios físicos e incitam o saber. O pan lembra de panificação, o pão nosso de cada dia e as massas finas derivadas do trigo; também nos recorda o pandeiro que ritmiza o forró e atiça o gingado no samba, além do Pan-americano, a competição que une as américas. Demia nos lega às academias de ginásticas e de letras e às instituições de ensino superior.

    No entanto, na atualidade, quando pronunciada, provoca terror, sofrimento, dor, angústia, desemprego... até prisão domiciliar. Tudo causa da disseminação universal da covid 19. Também, em que pese os acenos contrários das lideranças, nos animam a valorizar a ciência e os profissionais da saúde, com os testes, os cuidados e a descoberta das vacinas.

    Aliás, a notícia do teste retal para detectar o vírus me fez lembrar uma saudosa cliente que viveu 100. Sempre que podia, mesmo com o avanço da idade, acompanhava o neto nas compras. Com 96 anos, teve que se submeter a uma colonoscopia. “Doutor, o caboclo sofreu”, disse ao médico, depois de recobrar os sentidos, passado o efeito da anestesia.

    Beto Diniz, comerciante do ramo de ferragem e material para marcenarias, foi cliente nosso até o fechamento do açougue. Bem casado, sempre chegava acompanhado da mulher e nos divertia bastante com suas histórias e saídas improvisadas. Após longo tempo, reencontrei Beto há uma semana, quando fui à sua loja adquirir umas bugigangas para consertar um móvel.

    Na nossa rápida conversa, comentou sobre a covid 19 e seus efeitos no comércio e na vida das famílias. Falou das dificuldades que tem enfrentado, a exemplo de todo comerciante, mas me surpreendeu mesmo quando disse que o Brasil vive um cenário de duas pandemias. Nem esperou eu perguntar qual seria a outra. “Uma do povo, outra do governo”, adiantou.

    ASSIS COSTA

    Nos depoimentos dos inúmeros amigos sobre Assis Costa, que nos deixou em plena segunda-feira de carnaval, os testemunhos de sua generosidade foram unânimes. Comigo mesmo, além de generoso, foi compreensível. Ao me valer da sua ainda insipiente, mas já vasta coleção de discos de vinil, quando trabalhávamos juntos no Diário da Borborema. Usou o sobrenome fazendo o bem. Não dava as costas pra ninguém

    ALTEMAR DUTRA

    Admirador de Altemar Dutra e conhecedor, através de um irmão que convivera com uma mulher também chamada Margarida, que umas de suas músicas se intitula desse nome, procurei o LP do cantor com essa canção por várias discotecas de Campina Grande e das cidades que visitei. Em vão. Então, falei com Assis Costa e pedi emprestado o disco de sua coleção para gravar numa fita cassete. Prontamente me acudiu.

    DISCO QUEBRADO

    O som de nossa casa -moderno para a época -, se a memória não me trai, era um 3 em 1 ou 4 X 1: disco, toca-fitas, rádio e gravador. A estante de nossa sala era alta e o som ficava colocado na parte superior, acima do compartimento reservado à televisão. Para ter acesso na colocação do disco, tinha que subir num banco. Aproveitei para gravar os dois lados, mas quando fui virar o LP, ele caiu no chão e foi caco pra todo lado.

    DISCO DEVOLVIDO

    Fiquei sem chão, achando que ele iria pensar que o acidente não aconteceu, sendo uma artimanha minha para ficar com o disco. Foi muito compreensível e, diante da minha garantia de adquirir o primeiro que encontrasse, ficou tranquilo. Acionei de imediato um vendedor de discos que levava as raridades pra ele. Com pouco mais de um mês, o “discotecário” ambulante chegou com o LP. Paguei na hora e na hora mesmo o entreguei para Assis Costa.

    FEIRA CENTRAL

    Ultimamente, os nossos encontros aconteceram na Feira Central, na frutaria de Zito Procópio, divertido comerciante do local. O último foi em outubro, antes de Zito deixar a feira após cerca de 60 anos. Lá, Assis ficava sentado num banquinho, ouvindo as graças do vendedor, soltando as suas, e fazendo seus pedidos. Deixa um pomar de saudades.

  • PROSA DE FREGUESIA - O cliente e o exame (XVII)

    11/02/2021

    As pernas tortas lembram as de Garrincha, mas nunca chutou uma bola. Não é que a redonda fosse produto raro no cariri de sua infância; a condição paterna é que propiciava a escassez permanente de tudo. Menos de trabalho infantil. Melhor ter sido assim, pois passou a utilizar as pernas de forma incansável nos forrós do tempo de sua juventude, depois de fincar os pés em solo campinense. Até o dia que disse sim àquela que hoje cuida das sequelas da doença que o limita na velhice.

    Nosso cliente por mais de 20 anos, foram raras as vezes que Totinha, sozinho, veio às compras. “Ela disse que queria 2Kg daquela carne que vocês sabem qual é”. Acompanhava a mulher todo sábado, mas não dava pitaco nenhum, embora ficasse observando tudo. Sequer uma palavra. Nem mesmo quando ela lhe pedia o dinheiro para pagar a conta. Nas conversas comigo, falava que “mulher não manda em mim” ou que “não faço o que ela quer”.

    As constantes vindas de Totinha ao nosso comércio estreitaram nossa relação. A ponto de, por vezes, vir apenas “jogar conversa fora”. Ficávamos na cozinha. Ele, tomando um cafezinho; eu, se fosse no horário, as minhas três doses. Bom de copo, nunca bebemos juntos, pois ele já tinha deixado a bebida bem antes da solidificação da nossa amizade.

    Quando perdeu o emprego de muitos anos, Totinha optou por trabalhar de servente de pedreiro, fichado até a aposentadoria. Na precisão, porém, mesmo de ócio remunerado, fazia um bico na construtora que por vários anos dedicou seu trabalho. “É o dinheiro da carne”. Justamente nesse bico, ele voltou a “melar o bico”, numa das tentativas de deixar de beber definitivamente, sob a pressão da mulher.

    No novo local de trabalho, uma barraca instalada supria as necessidades dos trabalhadores e o dono, já conhecedor da disposição etílica de Totinha, sempre lhe oferecia uma dose. Até o dia que não resistiu aos apelos. “Encha o copo”, ordenou. Copo tipo americano, que, cheio, secava de gole. “A primeira já desceu convidando a segunda”. Foi mais uma temporada de bebidas e crescente desassossego em casa.

    Com jeito de figurante de filmes de faroeste, Totinha fala pouco, mas quando abre a boca, é direto, curto e grosso. Como nas conversas que mantinha, quando da prestação de serviços, com o padre amigo e que sempre o chamava, antes da doença limitadora, para os serviços de capinagem no terreno da igreja. “O senhor é mais teimoso do que o porco duroc”.

    Na última bebedeira, perdeu o “documento”. Na calçada de casa, a mulher já avistara Totinha vindo, naquele “cai aqui, cai acolá”, tentando se aprumar nas pernas tortas. Ao entrar, rumou pelo beco, equilibrando-se não se sabe como, parou e ficou tateando para abrir a braguilha. “Cadê... cadê... cadê...”, balbuciava. “Cadê o quê? perguntou a mulher. “A bichinha, a bichinha”, respondeu.

    Certamente essa passagem e a pressão da mulher e dos filhos o fizeram abandonar o vício. “Enquanto você falar, eu continuo bebendo”, dizia, ante os apelos implorantes da mulher. Mas ele creditava essa abstinência à mãe. “No dia que minha mamãe disse que ou ela ou a bebida, eu deixei.” Durante os anos em que ficamos nesse bate-papo nunca se animou a tomar uma, parecendo se contentar com o cheiro da minha cachaça predileta. “É cheirosa, mas...”, balançava a cabeça de um lado para o outro, economizando as palavras.

    Certo dia, apresentei Totinha a um cunhado que mora em Santa Catarina e na ocasião nos visitava, e provoquei dizendo que ele faria o exame de próstata naquela semana. “Não tem quem obrigue eu fazer. Prefiro morrer”, cortou. “Aqui, só quem botou o dedo foi minha mãezinha. Até o dia que me entendi de gente e disse a ela que pode deixar que eu mesmo limpo”.

  • PROSA DE FREGUESIA - Subterrâneos de excessos (XVI)

    04/02/2021

    Em que pese as orientações superiores ou em curso e a necessidade constante de um bom atendimento, os excessos cometidos pelos profissionais do comércio acontecem, na sua grande maioria de forma involuntária. Quando a excessividade ocorre, as consequências são graves à empresa, sendo a mais comum a perda do cliente, também a de maior gravidade, por afetar diretamente o caixa. Excesso não se encaixa, eis o lema.

    Quando aquele pai colocou o filho num colégio tradicional da cidade, não imaginava o que viria a ouvir sobre ele, um menino muito inteligente, mas pouco interessado nos estudos e muito levado. “Seu filho está insuportável”, disse o coordenador em reunião a dois com sua mãe. O genitor, ao tomar conhecimento, voltou ao colégio e fez suas queixas ao diretor. Já com a transferência escolar na mão.

    Um vendedor de peixe, desse meio abusado, já não suportava mais ver aquela freguesa pegar os aquáticos e, de um em um, aspirar para evitar que comprasse um estragado. Certo dia, de propósito, ele deixou os peixes sob refrigeração, não expondo nenhum deles no balcão, como de costume. “Não tem peixe hoje, não?”, perguntou a mulher, surpresa logo ao chegar. “Tem não, dona. A senhora só quer peixe cheiroso e peixe não cheira como perfume”, justificou.

    Amigo meu de muitos anos e colega do ramo de carnes, há mais de três décadas resolveu tentar melhor sorte em Timon, no Maranhão. Lá, viveu fases boas e fases difíceis até se estabilizar. Muito carismático, sabe agradar o freguês como ninguém, principalmente com brincadeiras de improviso, mas tem seus momentos de exagero no trato com eles. “A senhora está boa de arrumar um macho”, disse a uma cliente conhecida por abusar da boa vontade dos balconistas.

    Em adiantado estado de gestação, a cliente resolveu pausar as compras e encarregou uma parente para buscar a mistura no açougue, ambas já conhecidas dos funcionários. “Ela hoje quer linguiça, pois, vocês sabem, está grávida e por isso de desejo”, destacou. “Ela está assim por causa de linguiça e ainda quer mais linguiça”, reagiu o balconista, caindo todos na gargalhada.

    Proprietário de pequeno açougue no bairro, na década de 80, sabia os horários de movimentos da loja, os de picos e não. Certo dia ele precisou de um açougueiro para tirar a folga de um dos seus, que viajara. Naquele tempo, antes da lei do desarmamento, ele só trabalhava com um revólver em baixo do balcão. Nunca o usou, a não ser em brincadeiras. Como naquele dia do substituto.

    Determinado horário da manhã, costumava ser vazio de clientes, pois poucos vinham ao estabelecimento. Ele, então, chamou o colaborador e se dirigiram lá pra trás, quando puxou o revólver e disparou três vezes. “Quando aqui está fraco, eu dou uns tiros pra chamar o freguês”, justificou para um assustado profissional. 0s clientes começaram a chegar, mesmo.

    Apolônio cometeu muitos excessos, que o fizeram, estamos certos, superar muitas adversidades. Mas também foi superado. Recém-casado, vendeu um terreno no interior e veio para Campina Grande, junto a com a mulher, investir no comércio. Comprou um ponto, botou uma bodega e começaram a trabalhar. Logo conquistaram uma gama de clientes, o negócio foi crescendo e se transformou em mercadinho.

    Já avançando na idade, Apolônio continuava namorador. Leninha, corpo cobiçado no bairro e famosa pelas aventuras, caiu nas suas graças e foi sua desgraça, após iniciado o romance. Logo de início, ela passou a ser integrante no seu caderno de fiado, após convencer a mulher. Como saiam uma vez por semana, toda semana ele riscava suas contas. “A bichinha é ‘pagadeirinha’, Zefinha”, dizia sempre à esposa. O romance acabou e ela nunca descobriu. Mas o mercadinho voltou a ser bodega.

  • PROSA DE FREGUESIA (XV) - Quando o para-choque encosta no balcão

    28/01/2021

    A filosofia de para-choque é ambulante, logicamente, mas Xico Sá, aquele da Folha, já nos alertava, em 2013, que ela “já era”, em função da escassez de frases nos caminhões deste país. Contudo, quem vive do comércio vez por outra pode beber dessa fonte, justo quando ela estaciona sem pretensão nenhuma no balcão de todos, pela perícia do condutor que de viva voz a propaga num improviso de cantador de viola. Para descontrair e contagiar o ambiente.

    Foi o que aconteceu quando duas mulheres voltavam de Uber da academia e nem o cansaço pelo esforço nos exercícios impediu que uma delas observasse o nome do motorista na língua inglesa e o indagou, na curiosidade do momento: teu nome é Felipe. “Não. É Phillips”, corrigiu. “Então, o passageiro te chama de televisão, rádio...”, brincou. “Conheço uma moça cujo nome é Sony. Dá certinho para casar com você”, apontou a outra. “Aí forma uma dupla sertaneja”.

    Certa vez, um caminhão de carga maneira, placas de Pernambuco, parou em frente ao nosso comércio. O gordo motorista desceu, aproximou-se do balcão e, observando que não tinha mulher no ambiente, fez o seu pedido, após desejar um bom dia a todos. “Tem carne de boi seca?”. “Tem seca, tem verde, tem madura, salgada e insooossa”, frisou o balconista, entendendo a malícia e climatizando o encontro.

    Cleodon, meu tio pelo lado materno, foi caminhoneiro até o dia que Deus o chamou. Era muito brincalhão, mas com uma presença de espírito que realçava suas brincadeiras. Certa vez ele vinha meio ligeiro no seu caminhão, porém no limite permitido de velocidade, quando deu de frente com uma viatura da PRF e pisou firme no pedal, freando com certo impacto, o que motivou a ironia do policial. “Tem freio, hem! “. “Graças a Deus”, agradeceu, desarmando o guarda.

    Quando eu casei, Don-Don, como eu o chamava, não pôde comparecer por causa das constantes viagens. Um ano depois, ele chegou no açougue do mano Cloves e ficou um tempo conversando comigo, perguntando sobre a minha nova vida. “Mas já perdesse o fogo?”, perguntou, de chofre, com um olhar fixo no meu. Fiquei sério, meio encabulado, pensando coisas, quando ele quebrou o gelo. “A gente perde o fogo no dia em que dá um pulinho fora...”.

    Orion, proprietário de uma carreta com cabina Scania tipo jacaré, foi nosso cliente até o fechamento da loja. Depois de alguma resistência, optou por transformar o seu bruto num caminhão truck. Ficou lindo! “Pode copiar”, aconselhou, na traseira da carroceria. Certo dia, ele veio às compras, depois de estacionar seu jacaré em frente. Único cliente naquele momento, ficamos num bate-papo agradável, versando mais sobre o seu “novo” carro.

    Galego, como é mais conhecido, deu detalhes da reforma no veículo e confirmou estar recebendo muitas ofertas de compra. “Todo mundo doido pelo meu jacaré. Agora não vendo mais”, avisou. Zozó, esperto funcionário, entrou na conversa. “Esse caminhão aí leva um fogão?”, ironizou. “Leva até a cozinheira”, apimentei. “Se a cozinheira vier sai comida”, improvisou Orion, num duplo sentido que lembra João Gonçalves e suas divertidas composições.

    SENTIMENTO FAMILIAR


    A covid-19 fez mais uma vítima, só que agora uma pessoa bem próxima de nossa família. Há uma semana, a dentista Maria José Arruda, cunhada do meu tio Cloves, não resistiu aos ataques implacáveis do coronavírus e voltou à casa do pai, diria como equipista que sou. Considerava Maria José o símbolo da união entre os Pereira e os Araújo da Silva, cuja proximidade é tamanha, que parece uma família só. Por isso os sentimentos no meu lado materno são grandes.

    SEM TESTEMUNHA


    Maria José, igualmente suas irmãs, era muito querida por nós, e atendeu por muito tempo em seu consultório residencial, na rua João Moura; durante um período deixou meu sorriso bem melhor. Minha mana Maria da Guia foi sua assistente até se casar e ir morar em São Paulo. Lamento duplamente: por ser uma pessoa considerada da família e não ter mais a testemunha de que dormi na cadeira do dentista.

  • PROSA DE FREGUESIA (XIV) - Subterrâneo de excessos

    21/01/2021

    Ao cliente, tudo; ao atendente, a cordialidade, o bom atendimento. Tudo e cordialidade são palavras que, grosso modo, apontam como deve ser a relação bilateral de compra e venda. Contudo, vez por outras, os excessos são registrados, pois, seres humanos, os profissionais do comércio estão sujeitos às falhas ou reações intempestivas causadas pelo estresse da labuta diária. Geralmente, essas reações não ficam barato.

    Nunca esqueci do colega que atendeu aquele médico, já fichado na turma pela chatice e arrogância. Ele colocou o pedaço de carne na balança de ponteiros de um lado e do outro (bem moderna, à época) e confirmou exatos 2kg. “Não tem dois quilos aí, não”, duvidou, depois de olhar fixamente no ponteiro do seu lado. “Mas nesse lado tem”, reagiu, prontamente, o balconista.

    Outro, na feira central, vendeu um bonito pedaço de acém desossado por coxão mole. A cliente, certamente a secretária da casa, veio devolver e, após receber o dinheiro de volta, ficou xingando o atendente. “Você me respeite”, bradou o profissional. “Quem quer respeito, respeita o freguês”, ensinou. “Ela tem razão mesmo”, reconheceu, ao girar o corpo para comentar comigo.

    Também no Mercado Central, outro companheiro vendeu uma carne moída. O homem a trouxe de volta numa diminuta caçarola, bem temperada e cheiro de abrir o apetite. No ponto para o consumo, mas queria a devolução ou troca, justificando que estava estragada. O vendedor, meu vizinho de banco, pediu-me para verificar e comprovei a sanidade do produto, o seu odor.

    Diante da insistência do freguês, o açougueiro também mostrou a outros colegas, que atestaram as boas condições, entre eles, Caboclo Agra. “A carne está boa, cheirosa, pode comer sem medo”, falou ao homem, que insistia na troca. “Também, você cheira a carne com a boca aberta”, encerrou. Ele retomou o vasilhame e, de cara fechada, tomou o rumo de casa.

    Também vivi uma situação parecida, só que reagi com rara sabedoria. A cliente havia comprado uma carne de sol. Cerca de uma hora depois, apareceu o marido, de frigideira na mão, exigindo a troca. A carne frita, bem cheirosa, convidando a tomar uma. “Minha mulher comprou essa carne, disse que está estragada e pediu para trocar”. Cheirei com mais intensidade e a troquei por outra; cancelei a mistura já tirada para o nosso almoço, economizei no gás e ainda tomei três.

    Um balconista do nosso ramo trabalhou uma temporada e foi posto pra rua pelo patrão, depois de cometer algumas besteiras. Justamente no sábado à noite, na casa patronal, foram acertar as contas, sem que convergissem para um acordo nos valores. “Eu só saio daqui quando o senhor me pagar esse tanto”, ameaçou. O patrão, conhecido pela veemência ao falar, abriu a gaveta do birô, puxou um 38 e gritou: da minha casa. A carreira foi tamanha que se o patrão tivesse atirado mesmo “a bala não o acertava”.

    Conhecido pela calma, cometi alguns excessos, mas em duas oportunidades não foi com cliente. Na feira, um velho pedinte saia de banco em banco exercendo sua mendicância e costumava usar, disfarçadamente, uma das mãos para subtrair algum produto. No início da tarde daquele sábado, ele apareceu, disse-lhe, com boas maneiras, que não lhe dava e ele foi embora. Quando ele saiu, meu irmão, que era conhecedor de seus costumes, confirmou que ele havia levado umas gramas e me aconselhou ir atrás. “Deixa isso pra lá”, falei.

    Só que meia hora depois o velho voltou e ficou olhando pra mim, com um riso debochado. Um fogo subiu nas minhas pernas e não me contive. “Velho safado, você me rouba e ainda vem gozar com minha cara”, falei, segurando sua longa barba com as mãos. Depois, soltei uma delas e acertei-lhe o queixo. De branca, a barba ficou vermelha. Só deu tempo eu me esconder debaixo do balcão para a polícia chegar.

    A outra vez que me excedi foi com um vendedor, que apareceu à nossa loja, oferecendo um produto que não era nossa especialidade. Era eu dizendo que não precisava, que não estava em condições de adquirir nada, mil e uma justificativas. Ele não se convencia e insistia tanto, tanto, numa insistência tão incisiva que já estava me sufocando, pois, sentindo o fôlego diminuir. Não aguentei mais e me vali de uma brincadeira comum: se você soubesse a minha situação, tirava as calças e me dava. Ele fechou a cara, deu meia-volta e foi embora.

    FERNANDO SOARES

    Antes, já tinham nos deixados, vítima da Covid-19, Karina Araújo e Gomes Silva, colegas no JP e no DB; agora, Fernando Soares, habilidoso presidente da ACI. Tive poucos contatos com Fernando, pois justamente quando ele começou a liderar a classe, eu já havia saído da imprensa e me tornado recluso da atividade comercial, daí não ter aprofundado a amizade. Coincidentemente, foi na sua administração que fui alijado da lista de sócios da entidade. Nem liguei, pois achei justo, justíssimo, já que não estava mais militando em nenhum órgão.

    “É TUDO VAIDADE”

    Nosso encontro marcante foi quando eu fui escalado para fazer uma matéria sobre o presidente da Associação Comercial da época, José Borges de Medeiros. Antes de terminar de redigir, chegou Fernando na redação para ver o que eu tinha escrito, certamente pelo fato de eu ter vindo do esporte. Com muita gentileza, pediu para ler o texto e sugeriu trocar algumas palavras sob a alegação de que “a gente lida com vaidades”. Repetiu isso várias vezes.

    SENTIMENTO

    Outro encontro inesquecível nosso foi quando fui receber o pagamento pela compra de uma carne de bode que foi servida numa confraternização de final de ano da ACI. Agradeceu pela confiança, o preço camarada e a qualidade do produto. Foi, sem dúvidas, uma grande perda, visto ser uma pessoa agregadora e por isso o sentimento da categoria foi imenso.

  • PROSA DE FREGUESIA (XIII) - O médico e a coruja

    14/01/2021

    Conheci o dr. Abdias quando ele passou a ser cliente do comércio do meu tio, nos anos finais da década de 70. Decano da medicina, ainda continuava clinicando e tinha como característica inata o humor no trato com os pacientes e amigos, fundamentado na sinceridade de sua fala e até numa árida incontinência verbal. O que vinha à boca, ele soltava não importando quem estivesse por perto.

    Naquela época, a cidade já experimentava a expansão do comércio farmacêutico, mas com uma característica diferente da atualidade, convergente às grandes redes. Quando se abria uma farmácia, portanto, era consequência de um investimento individual ou de pessoas que queriam diversificar suas atividades. Nos bairros campinenses registrava-se a maior proliferação de novos estabelecimentos do ramo.

    Assim surgiu, em 79, uma farmácia para concorrer com a do popularíssimo Everaldo Agra, até então única na vocacionada comercialmente rua Campos Sales. A loja cheia de clientes esperando atendimento, dr. Abdias desceu do carro, caminhou na lentidão de seu passo e, sem o bom dia de chegada, soltou uma das deles, ao ver que abrira outra drogaria. “Campina Grande tem mais farmácia do que rapariga”.

    Particularmente, fui atendido pelo médico de forma inesperada. Esmorecido e em estado febril, não aguentei trabalhar naquele dia e me deitei no aconchego da casa familiar, que ficava no mesmo prédio do comércio. “Doutor, seu amigo está doente lá dentro. Vá lá tirar a temperatura dele”, disse o parente, acenando para uma consulta domiciliar. “Não quero melar meu dedo de mxxx não”, avisou.

    Convocação aceita, dr. Abdias entrou no quarto e, ao me ver, tascou um “diz, ladrão, o que estás sentindo?”, iniciando a improvisada consulta. Após o procedimento, desviou a atenção pra mulher do meu tio e receitou a medicação. “Dê esse remédio a ele e o enrole numa estopa, pois ladrão a gente enrola numa estopa”, recomendou.

    Há quem recordava, à época, a consulta de um padre de Pocinhos, famoso por suas aventuras com mulheres. Suspeitando de uma doença venérea, recorreu aos cuidados de dr. Abdias. “Doutor, eu fiz xixi no pneu do Jeep e fiquei com uma ardência e com um certo corrimento no pênis”, disse. “O senhor deve ir a um oftalmologista. Pra não confundir uma vagina (ele teria citado no popular mesmo) com um pneu”, teria recomendado. Ele nem confirmou nem desmentiu.

    Inesquecível também de dr. Abdias foi um atendimento domiciliar a uma vizinha de minha mãe e genitora de conhecido comerciante campinense de então, bastante idosa e fragilizada com a enfermidade. “E a velha parece uma coruja”, emendou, ao avistar a paciente, diante de seus familiares.

  • PROSA DE FREGUESIA (XII) - O “sobrinho” da cliente

    07/01/2021

    Roberto foi o colaborador certo admitido na hora certa diante da necessidade decorrente do processo de crescimento que nossa loja experimentava naquele ano. Aprendiz, embora entendesse do ramo, tinha uma capacidade incrível de assimilar os ensinamentos e rapidamente adaptou-se à equipe familiar. Tornou-se, logo, no profissional que a casa exigia com a vantagem de parecer ler meus pensamentos. Geralmente, quando eu pensava orientá-lo em determinado serviço, ele já estava em execução.

    Se as vendas obedeciam a um ritmo crescente, Roberto impôs maior celeridade no processo, recaindo na premência de contratar mais um atendente. Tímido e do tipo caladão, o pouco que falava parecia ser o suficiente para o freguês entender; de olhos verdes e jeito de galã de novela, ele também mudou o perfil da nossa freguesia, que passou a ser mais jovem, boa parte interessada também no novo balconista, recém-saído da adolescência.

    De modo que se tornou habitual telefonemas perguntando pelo gato, o lindo, o bebê, etc. Despertava interesse até de pessoas do mesmo sexo. Certa tarde, dia de folga de Roberto, o outro atendente estava escorado à porta, lá permanecendo, diante da aproximação de dois jovens homossexuais que vinham certos do atendimento de Roberto. 0 mais apressado, certamente o mais interessado, chegou primeiro e da calçada me avistou dando suporte ao caixa. Parado, voltou delicadamente o olhar para o colega, com um leve riso de decepção.

    Luzinete era minha conhecida de muitos anos, visto que fomos colegas do Estadual da Prata, e passou a fazer as compras no lugar da mãe, já bastante idosa, dando preferência pelo atendimento de Roberto, aliviando, de certa forma, os colegas, tamanha sua chatice. Em que pese o avanço da idade, Luzinete ainda provocava desejos e, no bairro, tinha fama sua disposição na cama, assim como na troca de companheiros.

    O certo é que as conversas reservadas entre ela e Roberto aumentavam, logo após o aviamento de suas compras, provocando desconfianças, apesar da diferença visível de idade e de sua situação de mulher comprometida no momento. Atendente de um frequentado consultório médico, Luzinete convidou Roberto para lá comparecer, mesmo não sendo local da especialidade de seu gênero, e justo no dia da folga patronal. Com a recomendação de que dissesse ao porteiro ser seu sobrinho. Convite foi aceito e consulta realizada.

    GENIVAL LACERDA


    Não lembro de Genival Lacerda quando dos meus tempos de menino, aqui em Campina Grande. Minhas lembranças do artista me chegam da adolescência, em Patos, de um show seu patrocinado em praça pública, na esteira de seu sucesso de então, Vendedor de Jumento. Depois, seu estouro com Severina Xiquexique, e minha volta para Campina Grande, em 76, para morar na casa de uma tia, na Liberdade, quando ele também chegou para residir ao lado da igreja Santa Filomena. No retorno do restante da minha família à avenida Almirante Barroso, via-o sempre na casa de dona Chiquinha de seu Enéias, famosa rezadeira.

    FEIRA CENTRAL

    Mas os encontros mais divertidos com Genival aconteceram na feira central, quando ele comprova carne ao colega Chico Macaco, que teria sido seu pandeirista ou seu tocador de triângulo. Saia cada uma. Nosso último encontro foi há dois ou três anos, na Almirante Barroso, em casa de seu amigo de toda vida, o mecânico Inajá, vizinho de minha mãe. Com o meu irmão Patrício, recordou alguns feirantes do Mercado Central, seu ponto logo cedinho nas manhãs de sábado, antes da mudança para o Recife.

  • PROSA DE FREGUESIA (XI) - O filho de Tiquinho

    30/12/2020

    Já que este ano epidêmico está a um tiquinho de nada para acabar, vale a pena contar a história do suposto filho de Tiquinho. Lucinha tem a pele morena, estatura alta realçada no corpo cheio e olhos levemente esverdeados. Ainda provoca suspiros no bairro. Contudo, a fama adquirida na adolescência após a primeira entrega, os desvios de caminhos e a incapacidade de fidelização ao companheiro da vez ainda são empecilhos para compromissos mais sérios.

    De origem humilde, cedo começou a trabalhar. Inicialmente em casa de família; depois, numa pizzaria, na qual fazia de tudo, mas sobressaindo-se como a preferida da clientela na função de garçonete, em que pese a reputação consolidada das noitadas após o trabalho ou folga. Além de atender bem, sabia se comportar naquele ambiente, tirando de letra as cantadas de um comensal insaciável depois da consorte ir ao banheiro.

    Lucinha foi nossa cliente por muito tempo, fazendo as compras do patrão ou patroa do momento, e raramente para si. Sua presença na nossa loja rendia sempre conversas apimentadas, após sua saída, quando algum companheiro de farras lá se encontrava. E até confissão, como a daquela autoridade, aparentemente bem casado e de certa classe, confirmando que saíra com ela tempos atrás. “É primeira, bem limpinha e faz direitinho”. Outros usavam palavras mais vulgares para definir suas habilidades no leito.

    De família desajustada, Lucinha tem uma irmã que, à época, vivia igualmente de aventuras. Parece que encontrou alguém que lhe deu rumo. Antes, porém, essa mana teve filhos e, pelo menos um deles, doara. No carro, a caminho da doação, o remorso torturando-lhe a alma, encontrou conforto e ânimo em Lucinha. “Tu não tens condições de criá-lo. É melhor dar, ele vai ser bem criado”. Depois, a palavra realista e convincente. “Nós não somos puta mesmo?”.

    Certa tarde, a loja vazia, chegaram três rapazes para a compra do tira-gosto da noite. Enquanto esperavam o aviamento da encomenda, conversavam, quando um deles disse que Lucinha está grávida. “Mas nem ela mesma sabe quem é o pai”, duvidou um deles. “É filho de Tiquinho”, confirmou o terceiro, despertando a curiosidade de todos. “Um tiquinho de um, um tiquinho de outros”, brincou. O rebento de Lucinha tomou o mesmo destino do primo.

    CEIA NATALINA(I)

    Agnes não é a minha prima em segundo grau, uma das filhas da prima Adelina; está muito explícito que Antonelli sequer é a produzida e talentosa atriz global; igualmente Alice não é mesmo a prima de minha mulher e nem Nina, a amiga de décadas de minha mãe e mãe do ex-colega Carlinhos; muito menos Zeca é o famoso do pagode e Pluto tampouco o personagem da Disney. Mas todos fizeram nossa noite de Natal melhor, mesmo com um deles subtraindo de nós o item principal de nossa ceia.

    CEIA NATALINA(II)


    A mulher, com a ajuda direta da filha, preparou tudo com extremo esmero. Encarregado da logística, às 15h em ponto deixei um dos itens do presente natalino na padaria para deixá-lo no ponto comestível. Com a recomendação de buscá-lo depois das 19h. Perto das 20h, cheguei em casa e coloquei o produto devidamente assado à mesa, rumando para o quarto, onde o chuveiro me esperava. Na contramão, Margarida se dirigiu à cozinha e deparou-se com a matilha devorando o Fiesta, resgatado da mesa por um dos hóspedes da semana natalina.

  • PROSA DE FREGUESIA (X) - Plataforma ecumênica

    17/12/2020

    O misto de conselho e alerta de seu Afonso foi além da solidariedade amiga. Traduz nas entrelinhas a dimensão da possibilidade latente de uma convivência sadia, pacífica, fraterna e compartilhada entre os cristãos. Sem agredir nossas crenças, sem intenção de forçar uma conversão incerta e ainda nos poupar de uma situação constrangedora.  “Continue pedindo, que Deus atende. Mas não use intermediário, peça diretamente a Ele”.  

    O sensato apelo, dito após perguntar e ouvir meu relato sobre a situação vivida naquele momento – acidente de um filho - , foi de um evangélico convertido para um católico praticante e que me tocou profundamente.  Mais pelo aceno ecumênico contido nas palavras do que mesmo pela solidariedade. Nunca esqueci.  “Está bem, seu Afonso, recuperando-se, já saiu do CTI”, dissera antes tranquilizando o meu cliente, que perguntara primeiro, com sua conhecida polidez, para depois iniciar o pedido de suas compras.

    Sou adepto do diálogo inter-religioso e da unidade dos cristãos, independente das denominações e estou de acordo com “a definição atual, mais abrangente, que considera como ecumenismo a aproximação, a cooperação, a busca fraterna da superação das divisões entre as diferentes igrejas cristãs”. No comércio, vive-se, com maior abrangência, essa relação. Além de clientes, acolhi, por exemplo, colaboradores evangélicos.

    Comercialmente, nunca tive problemas no relacionamento com cristãos não católicos e até os que se dizem ateus, pois fundamentado no respeito mútuo. Até cheguei a fornecer meus produtos para algumas igrejas. Contudo, já testemunhei determinadas situações que não foram fáceis entre os clientes, “Nossa Senhora foi a primeira prostituta”, blasfemou um freguês para outro, que retrucou alertando-o com um “você não sabe o que diz”. Consola-me não ter ouvido isso na nossa loja, mas num ponto ambulante na praça do bairro.

    No nosso, ouvi coisas até certo ponto compreensíveis, embora não aprove quando deriva para o radicalismo, como disse a freguesa recém-convertida na época em que existia os produtos embutidos São Mateus. “Eu quero 1Kg de Mateus, aqui”, pediu, apontando para a linguiça calabresa e subtraindo o “São” da marca, palavra que não discriminara antes. Ainda bem que o produto não era comercializado por metro, fiquei pensando.

    Constrangedor, também, ouvir julgamentos precipitados. Uma cliente só usava saias curtas, short mostrando a poupa da bunda e caprichava na generosidade dos decotes; depois ela surpreendeu na compostura das vestimentas. “Isso dava mais do que vaca nova. Agora, depois que é crente, se veste assim...”, comentou Paulo, ao vê-la sair da loja. “Todo crente tem um passado negro”, apontou outro, que depois teve que suportar o filho evangélico e a filha casada com um negro. “Fui castigado duplamente”, queixou-se.

    A sobriedade nas palavras de seu Afonso, ditas há sete anos, ainda hoje me enche de esperança de um mundo mais civilizado, ameno, sobretudo nesse momento tão constrangedor vivido no Brasil, marcado por tanta intolerância. Política, social, religiosa e racial.

  • PROSA DE FREGUESIA (IX) - O zoológico e a patada

    11/12/2020

    Nem tudo que se fala na parte reservada aos clientes numa loja é direcionado a quem está no lado de dentro da plataforma que os separa. Frações de conversas paralelas, por mais que jogadas na surdina, podem pular o balcão e chegar aos ouvidos do vendedor mais atento. Descobre-se, assim, muitos segredos e curiosidades que deveriam permanecer em mistério. Namoros ou casamentos acabados, moças desvirginadas, desavenças entre casais ou vizinhos... são novidades sempre captadas pela antena humana dos comerciários.

    O melhor, contudo, é ouvir as brincadeiras e as gozações que descontraem o ambiente. “Ele é tão amarrado, tão sovina, que na hora do ofertório, desliga a televisão”, brincou um comerciante em relação a outro. “E ele faz alguma coisa...”, duvidou Juari, quando informado que um amigo estava de namoro com mulher bem mais nova. “Mas ele deve ter estudado, tornando-se um poliglota”, completou, deixando o outro balançando a cabeça, rindo.

    Cliente de voz alta e conversa constante, quase não deixando que outros falem, não é preciso dizer porque é conhecido por Zeca Barulho. Quando ele começou a frequentar nosso comércio, chamávamos de Zeca Doido, até que um dia descobriu. Levou na esportiva. “Mas Zeca Doido, não. Podem me chamar de Zeca Barulho, como já me chamam na padaria”, pediu, amansando a voz, no esforço sereno para externar sua compreensão.

    Um dia de sábado, cerca de uma dúzia de mulheres no açougue, Zeca Barulho chegou e foi logo assanhando. “Mulher é pra apanhar de manhã pra comer sabão e apanhar de tarde pra saber que sabão não é pra comer”, admoestou, despertando a atenção coletiva. Conhecidas, apenas uma senhora reagiu, na profundeza de sua serenidade, falando algo que não relembro. Todos acabaram rindo.

    Mas o melhor de Zeca era dizer, para espanto de quem ouvia, que tinha um zoológico em casa, abrigando uma cascavel, uma jararaca, um burro velho, um cavalo, uma gata e um tigre. Além da mulher e dos dois filhos, Barulho aconchegara o sogro e a sogra. “A minha mulher é a cascavel e a sogra, a jararaca; o sogro, o burro velho; meu filho, o cavalo, que é uma coisa de bruto; a gata, minha filha. E o tiiiiigreeee, sou eu”, gabava-se.

    Em conversa paralela, duas clientes se confabulavam, quando uma delas queixou-se do tempo, que estava bastante frio. “Esse tempo só é bom pra dormir”, apontou. Bastante conhecidas, não hesitei em apimentar o bate-papo, soltando um “bom pra outras coisas também”. “Esses homens só pensam naquilo...”, lembrou. “Não tem quem aguente. Morta de sono, cansada, de madrugada, e o marido aperreando “, disse a outra. “Quando o meu começa eu dou logo uma patada”, confessou.

    FAMILIARIDADE


    Éramos mais de 20 primos, descendentes de três irmãos – meu pai e duas irmãs – e criados no terreno da minha infância feliz, entre o Colégio Panorama, Av. Almirante Barroso, Av. Dinamérica e o Conj. Nenzinha Cunha Lima, propriedade do meu avô paterno, Patrício Lopes de Almeida. Brincadeiras de crianças, trabalhos no roçado e na casa de farinha, banhos no açude... marcaram essa fase inesquecível da nossa vida.

    SAUDADE


    Há uma semana, José Barbosa da Silva (Deda), um desses primos, veio a óbito, vítima de um câncer impiedoso. Deda foi um dos mais divertidos desses parentes, em que pese a orfandade materna. Muito querido, deixa imorredoura saudade. Foi aquele “freguês” que não se arriscou, ainda noivo, a mandar o futuro sogro, barbeiro afamado no bairro, fazer sua barba. “E eu sou doido pra dar o meu pescoço a ele”, justificou.

  • PROSA DE FREGUESIA (VIII) - O ECC do balcão

    04/12/2020

    A labuta de quatro décadas me sugere que o comércio de bairro, principalmente do gênero alimentício, é um encontro de casais sem a tutela eclesial. Um encontro sem assembleia, sem o coro e sem o canto, mas de muitos encantos e vários desencantos; sem o padre ou o pastor para ouvir e orientar; com um cônjuge sempre disposto a confessar suas mágoas, suas aflições e enxergar no outro lado do balcão um psicólogo voluntário. Na nossa loja, Margarida, que ficava no caixa, era a especialista sem diploma.

    Também esse encontro temporal revela, vez em quando, uma surpresa agradável. É quando o casal alterna a realização das compras, ou seja, uma vez vem um, outra vez vem o outro. Nunca o casal. Até que, depois de muito tempo, certo dia chegam os dois juntos e confirmam a aliança. A surpresa é grande. O entrosamento entre o comerciante ou comerciário e o casal ganha um novo rumo. Vira amizade. Há exemplo até de compaternidade.

    Além dos problemas, das mágoas e das aflições ouvidas, testemunhamos realidades reprováveis. As brutalidades, as indelicadezas e as imposições entre os cônjuges. É muito constrangedor. Vi mais de uma vez mulher chorar com as grosserias do companheiro; vi também homem ficar calado, mudo, completamente anulado, sem reação nenhuma, diante da tonalidade vocal de sua cara-metade.

    Além de constrangedor, é triste presenciar essas cenas; saber que um cônjuge não come, há tempo, determinado tipo de produto porque o outro não gosta e impõe seu gosto. Há, contudo, dizeres engraçados, ditos com a naturalidade de quem carrega a comicidade na veia; também os falares chatos, pronunciados com a imposição de quem quer ser engraçado e não é.

    Certa vez, o marido ficou comprando a carne, enquanto a mulher foi na padaria. Com a sacola panificada na mão, ela voltou e, delicadamente, perguntou a ele qual carne tinha adquirido. “Comprei carne com osso. Se você não gostar, da próxima eu compro de novo”, ameaçou numa rispidez injustificável. “Ele tem que comprar o que eu quero, senão não tem carne nenhuma!”, alegou outra mulher, com certo ar de malícia.

    Dona Zirinha foi nossa cliente por muitos anos. Extremamente exigente, mas de uma exigência que não se transformava em chatice. O marido, de natureza calma, fazia as compras e ela só o acompanhava em situações especiais, a exemplo de um churrasco. “Está bem... bem enjoada”, respondeu sem qualquer arrogância, com certa dose de humor, certa vez, quando perguntado se dona Zirinha estava bem. “Hoje é o aniversário da minha gambiarra”, justificou outro ao trocar suas compras habituais por outras especiais, nobres.

    Um senhor, já avançado na idade, comprou um frango e uma galinha matriz e pediu que embalasse em sacolas separadas. “O frango é pra filial e a galinha, fazendo jus ao nome, é pra matriz”, justificou, antecipando-se a uma improvável interrogação. “Quando minha mulher morrer a bunda vai numa carreta e o restante do corpo no caixão”, tentou descontrair outro, sem arrancar qualquer riso de dois colegas que o acompanhavam.

    É muito prazeroso ver um casal fazer as compras em harmonia, dialogando sobre o que vai levar, procurando atender o gosto conjugal e até buscando satisfazer o paladar individual. Toinho, aposentado da Celb/Energisa, e dona Neném são exemplos de cônjuges que vivem essa harmonização. Foram nossos fregueses por cerca de 20 anos e nunca externaram qualquer contrariedade durante esse tempo. E todo sábado, sem falta, estava o casal na loja, já vindo da feira. Nunca chegou um sem o outro.

  • PROSA DE FREGUESIA (VII) - Toinho e a calça de Santa Cruz

    26/11/2020

    Antônio Pereira Filho é o tipo de cliente que quando chega ao nosso estabelecimento causa dupla satisfação. Certeza de vendermos algum produto e de risos fáceis em razão de suas tiradas humorísticas, com forte teor filosófico e ditas com a naturalidade de quem não tem a intenção de ser engraçado. “Eu vejo duas situações quando se diz algo: ou se torna engraçado ou se torna chato”, aponta, garantindo falar sem qualquer intenção de uma comicidade momentânea.

    Aliás, a história de Toinho de dona Elvira, como é conhecido no Jardim 40, não é uma piada, mas é cheia de graças. Graças divinas, quando sabemos que ele é alcoólatra, mas há 30 anos não bota uma gota etílica na boca. “Quem deixa de beber é como quem mata um: sabe o dia, a hora e o porquê”, justifica. Porém, uma latinha de sua cachaça preferida é o seu último desejo, no ocaso da vida. “Já avisei aos meus irmãos”, diz, certo de ser atendido quando tiver pertinho de cerrar os olhos.

    Aposentado como eletricista, Toinho tem como passatempo a cozinha. Aprendeu exercendo seu ofício no Hotel Ouro Branco, em João Pessoa, para onde fora transferido e lá ficou morando. Ligado a várias comunidades católicas, rotineiramente é requisitado como chef nos encontros. “Ensine todos os caminhos ao Padre Hachid, menos o da cozinha”, ouviu, num desses, sobre a disposição gastronômica do querido padre. “Ele come mais do que padre de novela”, completei.

    Quando eu caminhava nas primeiras horas do dia, avistei várias vezes Toinho chegando à academia. Certo dia, na loja, conversando com um vendedor, ele aparece e puxo conversa sobre sua determinação física logo cedo. “Academia é como prótese dentária: ninguém gosta, mas tem que usar e se acostuma”, comparou, arrancando uma risada espontanea do outro.

    Numa das vezes que veio ao meu açougue, Toinho fez o pedido sem delimitar a quantidade ou a quantia, no que eu perguntei o peso ou o valor em cifras. “Tire um pedaço de carne de sol pra mim, aí. “Mas tire um pedaço que caiba no meu bolso”. Enquanto eu afiava a faca na chaira, recomendou: mas lembre-se que minha calça é de Santa Cruz, o bolso é pequeno”, clamou numa metáfora externando sua situação financeira naquele instante

    Toinho é do tipo que coloca em jogo uma amizade para não ficar sem a piada. Sabe, contudo, conservar o amigo. Certa manhã, brincou até com sua fé praticante. Era tempo de inverno, mas de baixo índice pluviométrico. Tanto que amanheceu fazendo sol. Toinho chegou, deu um bom dia bem generoso, fez sua encomenda e se voltou para a porta, aproximando-se da calçada. De repente caiu uma rápida chuvinha fina. “É o único tempo do ano que a gente não pode confiar em Deus”, apontou.

    Lembrei-me imediatamente do meu saudoso tio Cleodon, caminhoneiro e também exímio na arte do improviso sem a viola nordestina, que certamente deixou certa contribuição à filosofia do caminhão. Dondon, como o chamávamos, limitava suas graças à superfície terrestre, na esperança de receber as graças do Alto. “Só gosto de brincadeiras do teto pra baixo. Do teto pra cima, não”, ensinava.

  • PROSA DE FREGUESIA (VI) - O segredo de seu Horácio

    19/11/2020

    Causou surpresa quando aquele senhor desconhecido desceu do carro, aproximou-se do balcão e pediu a encomenda de dona Candinha, cliente de muitos anos e que optara pela entrega domiciliar depois da confiança adquirida. Até então, na plenitude de sua exigência, preferia provir suas compras. Aliás, conferir a carne, pois seu gosto já sabíamos. Mantinha um balconista preferencial, o meu mano. “É para seu Patrício cortar”, recomendava sempre a quem atendia sua ligação.

    Fazia muitos anos que Dona Candinha nos dava a graça de sua fidelização; assim como admirávamos sua predileção por chã de fora ou coxão duro, ignorando a rigidez da peça. Nunca fora ao estabelecimento com o marido, razão da surpresa. Um dos colaboradores chegou a pensar que ela lidava com uma viuvez prematura ou um divórcio involuntário. Pensamento retorcido, malevolente; aquele senhor que buscou a encomenda era seu esposo.

    Seu Horácio, o marido de Dona Candinha, era o oposto da mulher, a partir do físico e da cor. Mais baixo do que ela, contraste mais visível ainda na sua pele morena em comparação à brancura enodoada da companheira. Um doce de pessoa. Conquistava logo pela voz. Mansa, aveludada, de um timbre diferenciado a traduzir todo carisma pessoal de seu Horácio, que doravante passou a nos agraciar com suas visitas, embora esporádicas.

    Mecânico industrial, viajava o Nordeste na prestação de seu disputado serviço, motivo de nunca ter comparecido antes. O tempo passou, até que a viuvez isolou seu Horácio. Ficou uns tempos sem nos prestigiar, certamente assimilando o golpe, até que certo dia chegou acompanhado da filha. Desde então, passou a frequentar nosso estabelecimento na matinal do domingo. Sempre os dois.

    Hoje, seu Horácio deve estar com 85 anos, mas dois anos atrás, poucos meses antes da loja baixar as portas de forma definitiva, a filha chega sozinha. “Ele foi ao Recife”, responde, após interrogada sobre o paradeiro paterno. Perguntei se ele foi acompanhado, com alguém dirigindo o carro e ela disse ter dúvidas, desconfiando, inclusive, que seu Horácio fora sozinho, enfrentando a intensidade do trânsito da capital pernambucana.

    Uma semana depois seu Horácio aparece sem a filha para fazer sua compras e eu puxo conversa sobre a viagem. Ele confirma ter ido sozinho, que até chamou alguém para acompanhá-lo. “Eu fui enterrar uma companheira de 30 anos. Vivi esse tempo com ela e Candinha nunca descobriu”, confessou, causando espanto. “Mulher que soube viver”, reconhece. Além da viuvez dupla, meses depois perdeu a filha em acidente doméstico.

  • PROSA DE FREGUESIA (V) - Incredulidade sobre duas rodas

    13/11/2020

    Um incentivo desperta para um sonho acordado. “Todo dia a gente tem dinheiro”, disse-me um lojista da panificação na minha primeira compra diária, objetivando prover as necessidades da refeição matinal, quando o meu comércio sequer era um projeto. Tantos anos depois desse alento, loja fechada, recordo suas palavras, acrescentando também ser a atividade comercial fonte de recuperação de semblantes, de sorrisos e de risos, quando perdidos nas preocupações dos compromissos assumidos.

    Não há profissional de venda que não recupere o ânimo e o semblante desanuviado ao avistar um cliente a caminho da loja. E quando ele chega bem-humorado... Artur foi desse tipo, fidelizando-nos a preferência até o fechamento definitivo. Com problemas de saúde, foi aconselhado a deixar de fumar e fazer atividades físicas. “Se caminhada fosse bom, carteiro não morria”, brincou, diante da obrigatoriedade proposta.

    Cícero, aposentado por acidente de trabalho, além do álcool, tinha no fumo um vício de todo minuto. A mulher do caixa ficava sem fôlego quando ele se aproximava para o pagamento da compra, reagindo abanando o rosto com as mãos, implorando certo distanciamento. “Ciço” nem estava aí. “Doutora, bote um ventilador”, aconselhava, na tranquilidade que a nicotina permite.

    - Comprei um terreno no condomínio, avisa Graça, sem que eu atentasse ser uma confissão a traduzir uma das acepções de seu nome. “Coisa boa, em qual deles? indago, divagando entre a surpresa e a satisfação com a conquista anunciada. “No cemitério”, repontou. “Mas não quero ir agora”, advertiu.

    Negociante de móveis usados, Neco queria adquirir um terreno encomendado pelo filho e foi conhecer o de nossa propriedade. “A dona dessa casa é minha cliente”, lembrou ao passarmos em frente de uma casa da rua. “Mas ela mudou de endereço”, disse-lhe. “Agora mora no São Judas Tadeu”, completei. “Em que bairro fica esse conjunto”. “No Cruzeiro”, alertei. “Mas ela está no céu”, balbuciou, franzindo a testa, entendendo ser o cemitério.

    Nascimento foi um consumidor que chegava na sua moto antiga, aos sábados ou domingos, sempre bem-humorado, não obstante sua voz grave e seu ar sério. Costumava citar causos e até confessar sua incredulidade, como na vez que chegou afirmando que” ninguém vai pro céu”. “Moro ao lado do cemitério e nunca vi ninguém subindo. Só vi descendo”, testemunha.

    VOTO BRANCO

    Nunca gostei de votar em branco ou anular o voto. Na eleição proporcional, se não escolher um candidato, opto por uma legenda; na eleição majoritária, se não me definir pelas propostas de um dos pretendentes ao cargo, escolho aquele que imagino ser o menos despreparado. Ou o menos ruim. Mas confesso que, a contragosto, uma vez já fiquei sem escolha. Por falta de opção mesmo. Ainda hoje me penitencio.

    VOTO NUL0

    Com certeza, essa consciência foi adquirida na plenitude de minha adolescência. Candidato à reeleição em 1974, discursando em comício na cidade de Patos, o então senador Rui Carneiro pedia o voto, orientando o eleitor nesse sentido. “Vote no adversário, mas não vote em branco nem anule o seu voto”, disse. Mesmo com esse discurso foi eleito, mas três anos depois veio a falecer.

  • PROSA DE FREGUESIA (IV) - Os clientes e seus candidatos

    05/11/2020

    Política e futebol são assuntos constantemente em pauta na casualidade dos encontros entre clientes em qualquer estabelecimento, de forma mais intensa quando das decisões ou em campanhas eleitorais. Há profissionais com habilidade para o clima, mas o melhor é o comerciário não se envolver e deixar que eles se digladiem nas discussões, brincadeiras e xingamentos.

    Nos meus tempos de comércio, tinha uma saída diplomática para o esporte, usada desde minha atuação como repórter da área. Meu time é Campina Grande, justificava. Na política, costumava alegar não ter candidato ainda, mas nos últimos anos optei por brincar dizendo que “meu candidato é o candidato do cliente”. Claro que os clientes não acreditavam.

    Esse artifício alimentava discussões entre os fregueses e até revelações de brincadeiras como a de Enivaldo, que foi comerciante de farmácia e meu freguês até mudar-se de bairro. Na companhia de um amigo chamado Asfora prestigiava os comícios de Enivaldo Ribeiro e Raymundo Asfora, em 76, para simulando candidatura. Quando o locutor gritava Enivaldo, ele levantava o braço, o mesmo fazendo o colega após o tribuno ser anunciado.

    Gesildo, amigo de muitos anos, costumava ver João Raia como cliente nosso. Certa campanha, em comício na Campos Sales, ele parou para ver Raia discursar. “Ele discursa dando sopapo com a voz”, definiu, diante da maneira do candidato falar, iniciando com a voz baixa, repentinamente subindo, rapidamente descendo, numa alteração certamente agravada pelo nervosismo do momento.

    Afonso Souto, irmão de uma cliente de meus tempos de Zé Pinheiro, é um candidato de muitas eleições, sem nunca lograr êxito. Este ano, mais uma vez, tenta. Em eleição anterior, dois clientes comentavam sobre política, quando um deles citou o xará de meu irmão destacando as sucessivas campanhas disputadas. “Sequer chega a suplente”, lamentou. “É Souto... os votos soltam-se dele”, completou o outro.

    Quando Ronaldo anunciou Cássio candidato para sucedê-lo, na década de 80, a gravação de A vida do Viajante por Gonzagão e Gonzaguinha ainda estava forte na memória do povo pelo sucesso que fez, mesmo sendo lançada sete anos antes. “É de pai pra filho. Feito Luiz Gonzaga”, disse o cliente quando atiçado a comentar.

    Talvez pelo sentido duplo do sobrenome, José Maranhão inspirou muitas tiradas de pessoas durante as compras, sempre de cunho malicioso. “Tem mais homens atrás de minha mulher que na carreata de Maranhão”, disse certo homem, comentando sobre os eventos de campanha.

    Numa conversa a dois, enquanto atendidos, um deles avistou uma amiga e comentou que ela gosta muito de Maranhão, o político. “E ela não tem marido não?” retrucou com certo cinismo no riso. Outro apimentou ainda mais a conversa ao avisar que não gosta de nenhum, ponderando: sou mais um Cunha Lima deitado do que um Maranhão em pé.

    Um cliente chegou em companhia de um homem desconhecido da loja, foi fazendo os pedidos e, mesmo sem ninguém perguntar, apresentou o companheiro. “É Cunhaaaado”, caprichou. “Muito prazer, cunhado”, disse o atendente, com certa surpresa. “Ele não é meu cunhado, ele é Cunha Lima”, explicou, rindo.

    Num bate-papo entre dois eleitores, um deles falava com ares exacerbados em reverência ao seu candidato. O outro, ferrenho adversário, caprichou no sufixo para denegrir sua imagem. “Aquilo é uma doença venérea”, irritando-o mais ainda.

    Na frente do nosso comércio, para um carro com fotos de quem tentava a reeleição e o motorista, detentor de cargo de confiança. No balcão, em atendimento, animada dupla da mesma preferência eleitoral o reconhece. “Esse come de lá”, comentou um deles, como que compreendendo a situação oposta do conhecido.

  • PROSA DE FREGUESIA (III) - Humor e ousadia no balcão

    29/10/2020

    O risco de perda persegue incessantemente o profissional do comércio, pois passa anos buscando a fidelização do cliente sob a ameaça de perdê-lo em segundos. Quem lida comercialmente com o público deve ter o dom da comunicação, mas, paradoxalmente, tem que saber dosar as palavras, falar o necessário e, principalmente, conter-se nas brincadeiras.

    Como foi difícil eu me conter quando aquela mulher, que eu nunca tinha visto, colocou um pé no meio fio, deixou o outro apoiado no calçamento e, sem rodeio, gritou de lá: você tem peru aí? Ela não estava com brincadeiras. Rejeito, o peru desejado por ela, é o osso cujo tendão une o músculo da perna traseira e é parecido com a cabeça do peru, a ave.

    Admiro e gosto do cliente que tira brincadeira, sabe brincar e brinca com classe como aquela pernambucana que passou anos em São Paulo e há anos mora em solo campinense, misturando o sotaque nordestino e paulista. Vai pedindo, pedindo e o colega pergunta o que é mais. “Sem mais”, costuma responder. Certa ocasião ele insistiu, sugerindo outros produtos e o uso do cartão quando ela alegou que o dinheiro acabou. “Não, não. Não mordi minha mãe na passagem”.

    Também com classe falou sério outra que, ao sair com as compras, depara-se, na porta, com a amante do marido, recebendo um atrevido bom dia. “Você vive tomando injeção do meu marido e ainda fala comigo”, disse, na surpresa do encontro indesejado e logo saindo. Ao contrário, a outra olhou pra gente, abriu um sorriso debochado e, sem um mínimo de vergonha, testemunhou: “Ele é gostoso mesmo”

    A descontração era a marca daquela vizinha, já de certa idade, quando chegava à loja. “Eu quero um peito de frango bem grande. Do tamanho dos meus”, dizia, contagiando a todos na espontaneidade de seu riso bem humorado. “Tú pinicas pra mim”, costumava pedir outra da vizinhança para o atendente cortar sua mistura predileta, o frango.

    Antigamente era mais fácil trabalhar com açougue, pois o cliente era menos exigente. Hoje, ele quer tudo pronto, quase no ponto de comer. Mas poucos pedem por favor; o favor fica na sonoridade das palavras, a maioria das vezes pronunciadas com certa dose de humor, um humor grosseiro até, como da vez que um homem pediu, depois de pesado, fracionar o produto adquirido. “Passa a faca nesse frango aí, pois se não partir a mulher passa a semana sem deixar eu dar uma ‘facadinha’ nela”.

    Também tem aquelas pessoas que dizem as coisas sem estar brincando e sem pensar solta o que vem à boca, sem se atentar para o que falou. Foi o caso daquela freguesa de todo sábado, que comprava bem, enchendo duas sacolas de vários itens. Ela queria linguiça toscana, o estoque tinha zerado, mas que chegaria a qualquer momento. Deixando pra vir buscar depois, recebeu as sacolas e, apoiando uma em cada mão, falou: está tudo aqui, né, mas vou ficar pendurado na tua linguiça.

    Outra vez, ela chegou numa hora de pico, com muitos clientes à espera e não vi que um funcionário novato já agilizava suas compras. Ele entendia do ramo, mas conhecia pouco ou não conhecia o gosto do cliente, daí minha preocupação em atendê-la, quando disse: espere um pouco dona Carmita, que lhe atendo. “Não se preocupe, que Júnior já sabe mexer nas minhas carnes”.

    E o que dizer da ousadia daquela morena de ancas largas que, percebendo a vigilância distante, ao receber a mercadoria, não se conteve: não quero a carne, quero o dono da carne? Nada, que não entrei no jogo dela. Afinal, onde se ganha o pão não se come a carne.

  • PROSA DE FREGUESIA (II) - As aposentadorias de seu Romeu

    23/10/2020

    A tendência da rotina diária do comércio de bairros é transformar a relação de compra e venda em amizade. Se o cliente também for do comércio ou trabalhar na prestação de serviços, a reciprocidade dessa convivência tende a ser uma realidade. Foi o que aconteceu entre mim e Edmilson, barbeiro que por décadas pontuou na Rua Campos Sales e que mantinha fidelidade canina à loja do meu tio. Logo passei a ser seu cliente, principalmente pelo trato no meu bigode inesquecível.

    Edmilson foi o freguês mais paciente e calmo que eu conheci. Nem mesmo na contrariedade de suas compras ele se irritava. “Uma pessoa sair todo mês de João Pessoa para cortar o cabelo em Zé Pinheiro, é porque tem um diferencial nesse atendimento, nesse serviço”, exemplificou em curso, Geraldo do Sebrae, referindo-se a ele. Além do bom serviço, sua paciência e sua tranquilidade contribuíam na fidelização de sua freguesia, acredito.

    Saber brincar também era característica de Edmilson, como naquela vez que comprou mais do que o habitual. Ao encerrar o pedido, solicitou a conta, dirigindo-se ao caixa; depois pegou as sacolas, dividiu o peso entre as mãos e gracejou, com uma leve malícia na entonação da voz: rapaz, tu me alisaste. “Eu te alisei, mas te deixei de barriga cheia”, reagiu, no mesmo ton, quem o atendeu.

    Deda, outro cliente, já na nossa loja, começou a namorar a filha de um barbeiro. Já noivo, continuava fazendo as compras da casa paterna e certo dia, contrariando seu costume, ligou pedindo que reservasse suas encomendas. Ao vir buscar, apressou-se em justificar a demora por fazer a barba. “Por que você não foi para o sogro fazer”, indaguei. “E eu sou doido pra dar o meu pescoço a ele”, disse. Está casado há cerca de 20 anos.

    Certa vez, uns quatro consumidores, à espera do atendimento, conversavam animadamente e falavam sobre um comerciante das proximidades, que mantinha com regularidade um padrão de vida tipo classe média. “Não é aquele que nem fica rico nem fica pobre”, definiu Edson, pedreiro que gosta de beber todo dia, trabalhando ou não, depois de perguntado se o conhecia.

    Seu Romeu foi nosso cliente enquanto morou em Campina Grande e um rabo de saia o segurava na cidade, colega que conhecera na empresa aérea em que trabalhavam. Mulherengo incorrigível, percorreu este país a serviço e em todo lugar arranjava um chamego. “Gosto de avião”, dizia com duplo sentido. As dificuldades financeiras traduziam o número de pensões obrigado a pagar.

    Carioca, conservava o jeito malandro de sua naturalidade, com simpatia e de fala mansa. Um boa-vida, mas muito pagador. “Recebi uma carta do INPS e agora estou com duas aposentadorias”, falou, da calçada, interrompendo sua passagem pela rua. “Do umbigo pra cima por tempo de serviço, do umbigo pra baixo por invalidez”, completou, saindo ligeiro para continuar sua caminhada. Justamente um rabo de saia mais novo fez seu Romeu rumar para o Ceará e cortar nossa relação comercial.

    CHANCE

    A diretoria do Campinense agiu certo em efetivar Hélio Cabral como técnico nas disputas da Série D, pois ele vive o dia a dia do clube, além de ter experiência como atleta, preparador físico e treinador. Invicto em quatro jogos quando chamado a exercer a interinidade, dos quais em clássicos contra Botafogo e Treze, faz por merecer a chance. Resta esperar que ele bote o time no rumo certo. O da classificação.

    EMPREGADO

    Givanildo Sales, que dirigiu o rubro-negro até último sábado, não ficou muito tempo desempregado. Na terça-feira, ele assumiu o comando técnico do Freipaulistano, clube sergipano que também disputa a Série D e vive um momento delicado. Givanildo substitui Paulo Foiani, profissional que no passado também esteve na Raposa.

    APOSTA

    O Treze aposta num jovem atacante que tem o DNA promissor no futebol. É Marcelo Júnior, filho de Marcelinho Paraíba e neto de Pedrinho Cangula. Desde os 14 anos que o atleta estava no interior paulista e agora chega ao “PV” e vai trabalhar ao lado do pai, auxiliar técnico do clube. Por que não Marcelo Paraíba?

  • PROSA DE FREGUESIA (I) - Cliente, feito criança, diz cada uma

    15/10/2020

    O comércio é uma via de mão dupla, na qual ninguém conhece ninguém e que as vezes o choque é inevitável. Quem está dentro do balcão não conhece quem está fora, quem compra não sabe quem está atendendo. Quando fui estudar no Estadual da Prata, então com 17 anos, um ainda jovem professor de Educação Física era cliente do açougue familiar em que eu passei a trabalhar, no bairro de José Pinheiro.

    O tempo andou, montei meu próprio negócio e, já estabilizado, busquei aperfeiçoamento no curso de Técnicas Comerciais do Sebrae. Um dos facilitadores foi Geraldo Inácio, aquele professor de Educação Física de meus primeiros passos no Gigantão e que por tantos anos eu atendi na loja do meu tio. “Como esse cara avaliava o meu atendimento?”, cheguei a me perguntar.

    Ainda no meu comércio, um amigo da reserva do Exército e que costumava prosear longamente nas suas compras, comentou sobre um ex-comandante do 31º Batalhão e ficou surpreso quando lhe falei que não o conhecia. “Conhece, pois ele compra aqui e mora ali, no outro quarteirão”. Outros ficavam surpreendidos com a presença de Shaolim, nas suas compras, alguns poucos me perguntando “quem é esse tão parecido...”.

    Mas na contramão dessa via acontece o contrário. Adolescente, costumava fazer compras no Mercado Público de Patos e, na entrada, avistava um senhor muito sério (nunca cheguei a conversar com ele), sempre arrumando as peças de sua loja ou atendendo alguém. Fiquei incrédulo ao saber, tempos depois, ser Batista Leitão, apresentador do engraçadíssimo Forró do Pé Rapado, na Rádio Espinharas.

    Certa vez, um conhecido veio me perguntar se aquele cara que ficava numa de loja de plásticos e material para sapateiros, nas proximidades da Feirinha de Frutas, era Paulo Roberto, o narrador esportivo e apresentador de programas televisivos. Quem não se surpreendia em assistir Polion Araújo apresentando o jornalístico da noite da TV Paraíba e no outro dia vê-lo dando expediente no seu caldo de cana?

    Ainda quando trabalhava no “Zepa”, fui vítima da arrogância de um conhecido advogado, mais famoso pela ancestralidade do que pela profissão. Ele, de família política com raízes caririzeiras e cujo significado “é o que se regozija”, “que se alegra” e “alegria interior”. A aspereza da reação, no exemplo a seguir, não corresponde, com certeza, à tradução da palavra que atesta sua familiaridade.

    Um sábado, dia de maior movimento em loja dessa especialidade, grande quantidade de clientes à espera de atendimento, até que chega sua vez. Fui eu o felizardo - talvez até pela estratégia dos colegas, pois a turma fugia dele - a atendê-lo.

    - Bom dia, seu fulano, pode dizer. “Fulano, não. Doutor fulano. Sou advogado, formado há mais de 30 anos.”, reagiu, por certo traído pela surdez que subtraiu o “seu” por mim pronunciado. Prontamente, dentro da máxima “ouvido de mercador” e sem absorver o golpe verbal, disse-lhe: pois não, doutor. Pode dizer o que é que o doutor quer.

    Pudera, o homem vivia cercado de poderes. Um irmão senador, outro deputado federal, sobrinho deputado, além de agregados na política. Ele, por insensibilidade natural, não poderia imaginar que por traz daquele balcão, procurando atendê-lo na melhor forma possível, estava um jornalista. Ainda nos primeiros anos, imaturo, portanto, mas que, embora atuando numa área diferente, se quisesse, colocaria umas notas contra os seus na principal coluna do jornal. Afinal, qual político não temia uma “binoculada”?

    PROMESSA

    Em 2006, minha mulher acompanhou uma irmã que fora fazer uma delicada cirurgia em São Paulo. “O tempo que você passar lá, eu não bebo”, garanti, numa época que eu bebia todo dia, mas não o dia todo. Apenas três doses para o almoço. Promessa cumprida. Foram cerca de 20 dias de Lei Seca, quando essa lei não havia sido implantada.

    DÚVIDA

    Claro que eu tinha que comentar essa indisposição etílica com os clientes, principalmente aqueles que gostam de uma boa cachaça, exemplo do amigo Eronaldo. “Eron, Margarida foi a São Paulo e eu lhe disse que o tempo que ela passar lá eu não bebo”, contei. “E você aguenta?”, duvidou. “Claro. Só bebo quando quero”, frisei. Ele permaneceu calado por alguns instantes, meio incrédulo, e disparou: então, se ela quiser que você deixe de beber, fique em São Paulo.

    MEMÓRIA

    Inicio com a coluna desta semana uma série enfocando o lado engraçado, folclórico e filosófico até de minha convivência comercial e de colegas com os clientes. Foram mais de 40 anos de labuta diária no comércio. Espero que a memória colabore para que eu possa relatar os melhores causos, como diria Boldrin.

  • APELIDOS NO FUTEBOL

    09/10/2020

    A Covid 19, que tanto estrago tem feito na vida humana, também traz surpresas agradáveis, agora beneficiando o futebol, quando sua ação pandêmica obriga o clube afetado a ampliar as chances a todos os jogadores do elenco, até ao nível da base. A ponto de um quarto goleiro, jovem e sem experiência, ser alçado repentinamente à condição de titular e ameaçar a titularidade de um experiente, intocável, e de atuação internacional do quilate de Diego Alves.

    Ao mesmo tempo, a súbita ascensão de Hugo ao gol do Flamengo amplia a discussão em território nacional sobre o uso ou não de apelidos no futebol, hoje em extinção no Brasil pela força do marketing, da profissionalização e até da seriedade, conforme reportagem do Uol. Apelidado Neneca desde criança, o arqueiro chegou à Seleção de base do Brasil com o nome de Hugo e agora, no rubro-negro, acrescentaram o Souza. Ainda bem que parte da mídia insiste em Hugo Neneca.

    Imagine Edson Nascimento, o Rei do Futebol, ou Manoel dos Santos, nosso mais famoso ponta-direita. Rei Pelé, soa melhor; Garrincha, o Anjo da Pernas Tortas, tem uma sonoridade poética. Ninguém conhece Marcos Evangelista e Carlos Verri, mas se falar Cafu e Dunga, todo torcedor liga os nomes à história do futebol. Zico me parece uma exceção, pois boa parte da torcida rubro-negra sabia relacionar Artur Antunes Coimbra ao apelido que por ter quatro letras, feito o de Pelé, acreditava-se dar sorte à Seleção. Pura superstição.

    Na atualidade, além da tentativa de eliminar os apelidos, insistem na utilização de nomes compostos, como no exemplo do goleiro, e aí surgem Roberto Firmino, Mateus Cunha, Tiago Maia, Bruno Henrique, etc. Até Neimar, na transferência para o futebol europeu, passou a ser Neimar Junior. Antes, a duplicidade de nomes no futebol vinha com o apelido que definia a característica do jogador, a exemplo de Roberto Dinamite, grande artilheiro vascaíno.

    Sou a favor da manutenção do apelido do jogador, pois é uma característica do futebol brasileiro; igualmente concordo que certos apelidos com sonoridade desagradável, feia, não devem ser usados. Também acredito que o uso contínuo de alguns apelidos feios pode torná-los agradáveis, isso se o atleta for bom mesmo. Alexandre Pato e Paulo Henrique Ganso, os exemplos. Pegou de tal maneira que se escalar Alexandre e Paulo Henrique, vão indagar se são contratações novas no elenco.

    Ainda bem que há resistência na abolição de apelidos no futebol brasileiro. O jogador Dentinho, ex-Corinthians, por ordem expressa de um técnico da época, passou a usar o composto Bruno Bonfim, mas quando o comandante saiu, logo voltou a usar o apelido. Hoje é Dentinho até na Ucrânia. PV, o nome de Pedro Vitor Gualberto de Assis Barreto, zagueiro do Santo André-SP foi orientado pela diretoria a ser Pedro Gualberto, mas recusou a sugestão e continua PV. E ponto final.

    SEM ALCUNHA

    Lembrei-me de pelo menos dois jogadores paraibanos que não adotaram, na profissionalização do futebol, os apelidos de infância. Os laterais Edvaldo Morais e Agra, atletas do chamado time de Zé Pinheiro do Campinense, na década de 70. O primeiro, era conhecido como Peba; o segundo, Coca. O lateral-direito só tornou o nome composto após a chegada de Edvaldo Araújo anos depois.

    PARA-RAIO

    A Raposa foi lançada por terra por um Guarani e quando enfrentou a Floresta ainda estava tonta. Agora, terá que desbravar os sertões e encarar o Trovão, na esperança de que um raio não parta seus planos de classificação na Série D. Em Cajazeiras, neste domingo, terá que usar um para-raios para neutralizar o pipoco do Trovão.

    TRABALHO

    Muito elegante a atitude do técnico do Treze, Marcio Fernandes, em enaltecer, após os primeiros resultados positivos da equipe na Série C, o trabalho de seu antecessor, Moacir Júnior. Coisa rara. Disse que apenas deu sequência ao que o antigo profissional realizou no ‘PV’. Pelo sim, pelo não, não se deve subestimar um campeão.

  • Campina Grande sem limites

    02/10/2020

    Talvez por coerência ao Grande do seu nome, Campina é uma cidade sem limites. O seu crescimento territorial por décadas impõe-lhe uma delimitação cega que deixa taxista confuso e perdido o maior conhecedor de suas ruas, becos e avenidas. Morador da Rainha da Borborema por 57 dos meus 62 anos – cinco da adolescência vividos no sertão -, confesso encontrar muitos locais da cidade que não sei onde estou. Se ainda é bairro X ou se já bairro Y.

    Aposto que se colocar em concurso ou em prova colegial um quesito perguntando onde fica o bairro Santa Cruz, o nível de reprovação será assustador. A grande maioria não saberá nem que ele existe e os poucos que tomam conhecimento não saberão demarcar suas fronteiras. Esse bairro foi criado ainda na minha infância depois da construção da igreja que lhe inspirou a denominação.

    Sua área territorial abrange parte do Cruzeiro, após a divisão que o criou, e tem início justamente no hoje Colégio Panorama, estendendo-se ao Condomínio Nenzinha Cunha Lima, em terreno que foi do meu avô paterno, até a ponte do riacho Bodocongó, margeando-o no sentido Três Irmães.

    Não obstante conhecer um pouco de sua história, tenho muitas dúvidas ainda sobre o bairro de minhas travessuras infantis. O cemitério conhecido como do Cruzeiro faz parte de qual deles, a porção urbana da Avenida Dinamérica sentido Malvinas já é bairro ou ainda é terra de Santa Cruz?

    Observando-se os demais aglomerados habitacionais campinenses, o problema tende a se generalizar. Imaginava, por exemplo, que o bairro Itararé é separado do Catolé pela Avenida Argemiro de Figueredo. Mas, não. Já me disseram que o Itararé atravessa essa BR urbana e encontra limitações em parte da Vigário Calixto, avistando-se o “Amigão”. Áreas territoriais do Alto Branco e Jardim Tavares (é bairro?) igualmente confundem muita gente. Que local termina o tradicional, onde começa o loteado? Qual a divisa entre Prata e Bela Vista?

    Quando passamos a falar de ruas e avenidas, também deparamos com grandes interrogações. No mês passado, fui convocado a buscar uma encomenda na Rua Fernandes Vieira. Fiquei surpreso e incrédulo quando me disseram ficar no bairro do Mirante, com referência edifício em frente ao Condomínio Alphaville. Desde adolescente tinha conhecimento que essa via começa no término da Paulo de Frontin, atravessa a Campos Sales, segue ao lado do Hospital DR. Edgley e acaba na Pedro da Costa Agra. Por ser mais perto, fui pelo Mirante, mas fiz questão de voltar pela Fernandes e conhecer o trecho que fica no elitizado bairro. Firmei ideia ser esse trecho merecedor de outra denominação.

    A Rua Francisco Ernesto do Rego é outra que faz o cabra endoidar. No princípio é Paulistano, desvia no bairro(?) Rosa Cruz e finaliza no Cruzeiro, na Av. Juscelino Kubitscheck. No Rosa Cruz, esse logradouro esbarra na Rua Augusto Borborema, pula à direita uns 30m e segue sediando o Centro de Madeira, atravessando a Ana Vilar, entre outras, até mais um leve desvio, agora à esquerda, para findar na JK. Acho mais lógico ela terminar na Augusto e na sequência ter outro nome, assim como o trecho, após levemente desviado, para acabar na Juscelino.

    O contrário acontece com uma via que tem base na Av. Assis Chateaubriand e finda na Juscelino, batizada com dois nomes. No começo é Pedro Otávio de Farias e após atravessar a Manoel Leonardo Gomes, homenageia Gasparino Barreto. Como não é tão alongada, poderia ter apena uma nomenclatura; qualquer desses nomes, arrisco sugerir. O outro poderia substituir Ernesto a partir da Augusto Borborema.

    As associações de moradores de bairros ou as tradicionais SAB’s (Sociedade de Amigos de Bairro) poderiam realizar estudos para dissipar essas dúvidas. A do Jardim 40, por exemplo, fez um paciente trabalho junto aos órgãos municipais e transformou um simples loteamento em bairro, com direito a mapa e tudo. Depois de muita luta.

    Acredito que essa abordagem deve servir como tema do próximo período legislativo da Câmara Municipal campinense. Fica a dica. Enquanto isso, bem que Vicente e Lourdinha, amigos e vizinhos de familiares meus, poderiam colocar uma placa despretensiosa na esquina do colégio com os dizeres: Limites dos bairros Cruzeiro e Santa Cruz.

    PENSAMENTOS

    Admiro muito pessoas criativas, inspiradas. O meu amigo pastor Marcos Dias Novo, ex-colega dos tempos de colégio, é dessas. Antes, no nosso grupo, ele postava versos de cordéis com temas sobre o sono e Deus. Deu uma pausa. Agora, ele nos brinda com o quadro “Penso que os poetas pensam assim”. Com pensamentos realistas.

    EXPERIÊNCIA


    Nos últimos, reuniu beleza e realidade. “Penso que os poetas pensam assim: o melhor professor da vida é a experiência. Ela cobra caro, mas explica bem”. Como não sou poeta, em que pese alguns lampejos juvenis, discordo. A experiencia não cobra, ela é dura. “Algumas pessoas são como a cana de açúcar: mesmo sob pressão, mesmo sob tortura, ainda assim fazem o bem, ainda destilam doçura”, pensa. Gosto do destilado...


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