Colunista Valberto José

Jornalista, formado pela Universidade Regional do Nordeste (URNE), hoje UEPB. Iniciou como colunista na Gazeta do Sertão e trabalhou no Diário da Borborema e Jornal da Paraíba, colaborou na versão impressa d`A PALAVRA.

  • Compartilhando mensagens

    09/07/2021

    Não há motivo maior para comemorações do que datas natalícias, estando vivo. Festejar meu nascimento, à minha maneira e de acordo com as minhas condições, é uma das práticas que conservo. Nesse dia, nada me atinge, a alegria predomina e a sensação é a de que é o dia mais feliz do ano.

    Nas datas de aniversários de familiares, principalmente irmãos, costumo enviar-lhes mensagens, via grupo, inspiradas no sentimento que nos une, no que eles são e o que representam em minha vida. No mês do meu aniversário, vale compartilhar esses afagos. É o que segue.

    No níver da mana Albanete, postei uma mensagem no grupo da família e a sobrinha Nilsa, comentou: Minha Nossa Senhora, como é que a gente escreve mais alguma coisa depois desse texto de tio Valberto. Priscila, sobrinha que mora em Teresina, sugeriu: copie e cole o texto de novo. “Simples assim”.

    HERANÇA

    “O nome é Albanete, mas poderia ser Ana Cristina, como chegamos a chamar. A intransigência paterna mudou o seu antropônimo, mas a generosidade divina manteve como suas principais características pessoais o significado do nome preferido pela gratidão materna, ou seja, cheia de graça e ungida por Deus. E essa graciosidade ela irradia, indistintamente, a todos.

    Acredito ser Albanete, dos filhos, quem mais carrega na alma a fé de Cleonice, nossa mãe. Com a vantagem de transmitir essa fé com palavras, atos e até nas omissões involuntárias. Quem se aproxima dessa nossa irmã, certamente se sente mais perto de Deus”.

    ANGELICAL

    No aniversário de Carminha, a caçula da prole, escrevi: Tu és tão angelical na vida do próximo (e também do distante) que te definir é quase impossível. És uma desafiadora da filosofia franciscana; fazes sem esperar receber.

    Carregas no ombro também a serenidade, esse atestado de fé. Eu e tu somos a extremidade familiar a partir do momento que sou o primogênito e tu és a caçula. Mas se a última és, com certeza és a primeira entre todos no coração da descendência de José e Cleonice.

    Recentemente, o “piauiense” Afonso ganhou cartão de idoso, o que motivou eu agrupar a mensagem: Tão bom chegar aos 60 com jeito de adolescente responsável e exemplo de adulto caridoso; agora idoso animado. Nem adiantou a bariátrica, pois o coração permanece obeso. Obeso de bondade.

    A CHEF

    Baixinha no tamanho, Aurora, também irmã, tem o nome e a estatura da avó paterna. Cozinha maravilhosamente e madruga para trabalhar. “Parabéns, mana tão pequena! Mas de um coração tão grande. E de uma mão de fada, que agrada o paladar de todos.

    Uma pequena que faz jus ao nome ao nos lembrar fisicamente nossa vó paterna; ao sair pra trabalhar, feito os tropeiros, ‘mais cedo que a barra da aurora’. Que Deus mantenha sempre essa serenidade que esconde teus problemas e tuas preocupações”, mensageei.

    Anete é outra irmã, que mereceu a seguinte felicitação: Certamente teu nome é o diminutivo de Ana, a avó de Jesus. Mas nem a aparente diminuição nominal apequenou tua fé; pelo contrário, és um exemplo de pessoa que conserva uma crença inabalável e perseverante, fazendo jus à origem de teu nome e por isso mesmo cheia de graça.

    SERVO

    Em que pese o apelido feminino, Bia é o mano das carnes no bairro do Catolé, e nessa mensagem vale saber o seu nome verdadeiro. “Abdias, o teu nome de batismo, tem uma característica linda no seu significado: servo de Deus.

    E assim tu te comportas quando faz uma caridade, quando compreende o próximo, quando perdoa o próximo... Bia, o teu apelido no berço familiar, traduz a força na mitologia grega. Que uses essa força para e como ação na significação do teu nome batismal”.

    A “paulistana” Maria da Guia ficou surpresa com essa mensagem: A devoção materna foi divina ao optar por Maria e Guia na composição nominal de nossa mana. Foi até profética, além de sábia e devota. Maria simboliza a fé de quem acredita; Guia, a sabedoria que necessitamos para caminhar e guiar quem a nós, se une. E você, D‘aguia, tem sabedoria para se guiar e guiar os seus.

    TRINDADE

    No início do mês, dois sobrinhos e a mulher de outro, comemoram novas datas. “Ah, essa trindade humana que nos enche de uma trilogia: fé, esperança e amor. Que Gabriel, Valentina e Janaína tenham sempre a proteção da Trindade Santa”, desejei.

    Em ano interior, o texto foi esse: Um trio que nos encanta pelas travessuras espontâneas de Valentina, pela maioridade conquistada por Gabriel e pela maternidade abençoada de Janaína. Que a ação divina seja uma constante na vida de cada um deles.

    FILOSÓFICO


    Para Juliana, sobrinha filha de Anete, mana especialista em doces, postei: Hoje, nossa família festeja mais um ano da docilidade de Juliana em nossas vidas. Sim, ela, além de nos passar doçura, nos repassa calma, nos transmite serenidade.

    A degustação da especialidade culinária materna não só lhe fez bem ao paladar, está expressa na sua voz e no seu jeito delicado de ser.

    Aline herdou da mãe Aurora o gosto de cozinhar e é formada em Filosofia. Não tive receio em homenageá-la desejando ser o escritor inglês que escreveu a biografia de São Tomás Aquino. “Numa data como esta eu queria ser G. K. Chesterton para te emoldurar um perfil filosófico”.

  • SONHANDO NA ACADEMIA

    02/07/2021

    Por “livre e espontânea pressão” filial, sob a argumentação de fortalecer os músculos, senti a necessidade de me matricular numa academia, após 17 anos apenas participando de caminhadas, que antes já era minha principal atividade física. Na única vez que decidi malhar, passei apenas três meses. Não me adaptei.

    Agora, sem a rotina laboral de até dois anos atrás, passada uma semana, a adaptação foi instantânea. Assimilei direitinho os exercícios e a ociosidade sem remuneração ainda me deixa livre para manter as caminhadas.

    O bom da academia, além das atividades físicas, foi reencontrar o amigo Lopito, que sempre solta das suas. Em dúvidas num exercício braçal, por exemplo, pediu orientação ao professor, que recomendou subir até ao peito, descendo até às coxas. “Já sei. Peito pênis, peito pênis”, atreveu-se.

    Noutra oportunidade, brincou com a própria mulher, que sempre o acompanha nas atividades físicas. Lopito acabara de exercitar o número, que exigia o corpo deitado na extensão do estofado do equipamento, enquanto o colega esperava o término.

    Terminada a série, Lopito não liberou a máquina, sem antes dar-lhe um conselho. “Higienize a máquina, pois dormi com uma morena que não é bem limpa...”. A mulher, que ouvia tudo, já acostumada às suas graças, balançou a cabeça e abriu os lábios de compreensão.

    Lopito sempre fica atento às práticas físicas dos companheiros nos segundos ou minuto entre um intervalo e outro das séries exercitadas. Certo dia, ele avistou uma senhora se exercitando com as mãos para trás, segurando uma espécie de vara, que lembra um cabo de vassoura.

    Rápido, pediu o meu olhar em direção à mulher. “Uma pá”, disse, apontando. Que pá? perguntei, sem entender nada. “Uma velha corcunda com um pau na bunda”, decifrou, impondo uma seriedade de humorista na resposta.

    O trabalhar das panturrilhas, que sempre é o penúltimo das atividades, Lopito faz com imensa satisfação. A panturrilheira tem uma longa haste metálica apontando pra frente, segurando o peso, que dá a sensação de potencialidade juvenil, quando levantada.

    Sentado, o praticante apoia os pés em baixo e as coxas acima, sob o estofado protetor. Na proporção que movimenta os pés, a haste vai subindo e descendo, e a sensação de potencialidade aumenta. “Aqui, eu me sinto com a potência da minha juventude”, alegra-se Lopito.

    Naquela manhã, certa aluna passou toda a aula falando do sonho que tivera na noite anterior. A mulher sonhou fazendo todos os tipos de exercícios físicos a noite toda e toda atividade que praticava, naquela manhã, comentava com o professor que já fizera no sonho.

    - Sonhei fazendo tudo. Fiz perna, fiz braço, abdominal... Chega me acordei cansada, queixou-se. – Então, nem precisava ter vindo hoje, brincou o professor.

    Calado, Lopito ouvia tudo, torcendo para que a mulher saísse mais cedo, na ansiedade de soltar das suas; ele acabou findando a atividade daquela manhã e foi embora, deixando a colega ainda rememorando os seus sonhos.

    Voltando no dia seguinte, Lopito deu bom dia a todos e, antes de buscar seu programa de treinamento, procurou conversar com o docente em particular, logo perguntando pela sonhadora, que ainda não tinha chegado. “Eu acho que ela estava sonhando com o professor”, maldou.

    FUTEBOL E CACHAÇA

    Sempre é bom quando a gente vê a torcida motivada, incentivando o time e até retribuindo os resultados obtidos dentro das quatro linhas. Como agora fez um grupo de torcedores do Campinense, garantindo um bicho de R$ 102 mil aos atletas pelo título conquistado.

    Ao tomar conhecimento de que alguém investe no futebol sem a perspectiva do retorno financeiro, lembro de Severino Marinho Leite, o homem que anotava as fichas técnicas dos jogos do Treze. “Futebol é cachaça”, dizia, traduzindo todo sentido de diversão que tem o futebol.

    MAIORAIS EM CONFRONTO

    Campinense e Treze jogam mais um clássico neste sábado, dia 3 de julho, agora pelo Campeonato Brasileiro da Série D. Motivada pelo título estadual conquistado e pela vitória obtida em cima do Central, na casa do adversário, a Raposa quer mais três pontos para se manter entre os primeiros do grupo A3 da competição.

    SEM FAVORITISMO

    Sem vencer no certame, o Galo busca uma reação e nada melhor do que um clássico para reiniciar uma nova fase de vitórias. Em clássico, é bom lembrar, não há favoritismo e o time que está por baixo costuma dar a volta por cima. O jogo terá no apito o amazonense Antônio Carlos Frutuoso.

  • O duplo sucesso de João

    25/06/2021

    É feito extraordinário um compositor nordestino, desconhecido, radicado no torrão natal, emplacar dois sucessos nacionais ao mesmo tempo, no mesmo ano, e do ritmo que mais caracteriza a musicalidade da região. João Gonçalves, que nos deixou às vésperas do Dia de São João, conseguiu realizar essa façanha em 1975.

    O hit Severina Xique-xique, interpretado por Genival Lacerda, teve repercussão tão grande no país, que está na listagem das 100 músicas mais executadas no Brasil, naquele ano. Ocupando uma marcante 15ª posição, conforme o site Mais Tocadas.

    O outro sucesso criado por João foi Mariá, forró gravado pelo cearense Messias Holanda, que embora não se encontre entre as 100 mais, permaneceu meses nas paradas musicais brasileiras, no dizer daqueles tempos.

    Adolescente, lembro perfeitamente quando tive a alegria de ver pela primeira vez Genival Lacerda cantando o “forró da boutique”, como ficou conhecido, em programa televisivo de abrangência nacional.

    Também nunca esqueci o impacto que me causou ao ouvir Mariá, na primeira oportunidade, pela força dos seus versos simples, relatando os costumes e o chão do cariri, terra de meus familiares. Nem me dei conta do duplo sentido contido no refrão.

    Embora estudasse no Vera Cruz, em Patos, vinha saindo do colégio Estadual, onde participara da aula de Educação Física do professor Bastinho, à época ainda atleta do Nacional. Caminhando para contornar a praça em frente, surge o carro de som de Patrício Neto – Patrisom - tocando Mariá.

    O resultado sonoro do puxado da sanfona e do batuque do zabumba e do pandeiro mexeu com as minhas pernas. Fiquei quase a ensaiar uma dança, mas os versos cantados, explodindo feito bomba junina, contiveram os passos, faiscando no peito uma nostalgia adolescente.

    “...Na cacimba só tem água pra beber/...Nesse tempo não tem água pra gastar/Já disse: na cacimba não dá certo/ Vai pro riacho salgado/Eu fiz um buraco lá/A água do riacho é bem limpinha...”.

    De volta a Campina Grande no janeiro seguinte, testemunho João Gonçalves lançando o primeiro disco. Como agradou naqueles anos, embora não possuísse uma boa voz, o que motivou um colunista colocar um ponto de interrogação entre parêntese ao escrever a palavra cantor quando se referia a ele.

    Ainda em 76, assisti João ao vivo pela primeira vez, numa apresentação nas proximidades do mercado da Liberdade, pertinho da casa de Genival Lacerda. Mas num show no gancho da estrada, a final da Almirante Barroso com a rua Três Irmãs, o cariri retratado de novo em nova letra.

    “Quem tem lá no cariri, chiqueiro de criação dá um duro da mulesta para sustentar de ração”, versos esses chamando a atenção do parente Chico Lopes. Ele, na sua seriedade rural, atento à mensagem, não se contendo no duplo sentido do refrão – A cabra até como pouco, mas o bode comendo acaba -, olhou pra mim abrindo um sorriso e balançando a cabeça.

    Marcos, irmão de movimento religioso e cearense viajado, falou sobre João com certa nostalgia dos anos 70, 80. Surpreendeu-me ainda quando eu disse que o compositor morava na mesma rua do meu comércio e confessou: eu sei, pois fiz uma visita a ele”.

    Cerca de quatro anos atrás fui com amigos à zona rural de Puxinanã, quando ficamos bebendo, ouvindo músicas e outros dançando. Depois de tocadas músicas do compositor, ele passou a ser assunto dominante das conversas. Moradores locais lembraram suas músicas e alguns até desejando um encontro.

    Meu contato inicial com João Gonçalves foi ainda na década de 70, quando passou a morar no Zepa e se tornou cliente do tio Clóvis, com o qual eu trabalhava. Anos depois, no Jardim 40, novo reencontro, após ele fixar residência, de onde partiu na segunda-feira, dia 21, para deixar uma enorme boutique de saudade.

    HEGEMONIA RUBRO-NEGRA

    O título estadual conquistado pelo Campinense em cima do Sousa, tornando-se o primeiro time a ganhar o certame em território sertanejo fora os nativos, mantém a hegemonia rubro-negra em transição de décadas. Ou seja, a Raposa sempre papou o estadual em final ou início de dezena anual. A exceção, os anos 99,2000 e 2001 e 2009 e 2011.

    Logo ao debutar no campeonato, o rubro-negro foi campeão em 60, 61 seguindo a série anual até fechar com o histórico hexa em 66; na década de 70, após um hiato de três anos, ganhou em 71 até faturar o tetra em 74; em 79 e 80, a Raposa feroz de Zé Aurino festejou o bi. No início dos anos 90 veio o título de 91. Agora, 2021, volta a erguer a taça.

    OUTRO PRIMO


    A Covid, a “gripezinha” do presidente, leva mais um primo, agora do lado paterno. Gutemberg Almeida, o Berg, não resistiu às consequências do vírus e ontem, Dia de São João, veio a óbitos aos 54 anos. O sepultamento é em Livramento, para onde a família mudou-se na segunda metade da década de 1970. Antes, na primeira segunda-feira do mês, levara Janarque, sobrinho de minha mãe.

  • Último forró no Triângulo

    18/06/2021

    O Maior São João do Mundo foi marcante na minha vida, com realce o de 1987. Nem a dura rotina diária de trabalho em duas frentes impediu, naquele ano, que eu perdesse apenas três noites no Parque do Povo, uma das quais – a de São Pedro – vendo o raiar do sol.

    Passeei nas suas ruas fictícias, matei a sede etílica nas suas barracas e “filmei” as danças hilariantes de suas palhoças. Sem uma namorada fixa, sequer um quebra-galho, como lamenta aquele forró de João Gonçalves. Livre, leve e solto. Não tinha como imaginar que seria minha despedida de solteiro. E foi.

    Mas os acontecimentos da infância marcam mais. Daí, a memória me retroceder no tempo, a um tempo de mais de duas décadas antes da festa junina local agigantar-se a ponto de se tornar em evento de repercussão turística além-mar.

    Tinha eu 11 anos quando minha mãe me colocou no catecismo da Igreja de Santa Cruz, hoje Igreja Nossa Senhora das Dores, aquela nas proximidades de JC Rocha. Dona Lourdes, dedicada catequista, evangelizava com foco na motivação dos catecúmenos.

    A realização de um presépio vivo no Natal e a promoção de quadrilha junina no mês de junho são exemplos de eventos motivadores que ela criou. A marcação da quadrilha de 1970 (ou seria 69?) lembro bem. O trio de forró com Zé de Tatá na sanfona, o casamento matuto e o passeio em carroça de burro, etc.

    No primeiro ensaio, dona Lourdes orientou a formação de duas filas, uma de homens e outra de mulheres, lado a lado, resultando no par de quadrilheiros. Racista, o colega da frente, ao perceber que ficaria com uma negra, interpretou a brincadeira do grilo; foi para traz.

    Essa artimanha impeliu-me a um avanço na fileira, mudando a paridade e, consequentemente, ficar com a preta. Assumi a negritude da dama por todo ensaio sem demostrar qualquer acanhamento.

    Minha reação não passou despercebida. No treinamento seguinte, a catequista escolheu para ser minha dama a mais bonita da turma, embora mais alta do que eu. Em mais um ensaio, a professora me surpreendeu ao nos confirmar os noivos da quadrilha.

    Paralelamente aos ensaios, os mais chegados da turma organizavam momentos dançantes nas casas. Lembro, particularmente, da animação na casa do obeso Epitácio. Como não tinha amizade com a noiva, ficava livre para dançar com outras meninas nessas festinhas caseiras

    A festa não durou o mês todo, mas foi animada, bonita e atraiu os moradores do bairro. No dia da quadrilha, a passeata de carroças de burro percorreu partes das ruas Almirante Barroso, Francisco Lopes de Almeida, Três Irmãs e por toda Prof. Luiz Gil.

    Se fosse hoje, diante da afirmação do Maior São João do Mundo como um dos maiores eventos do turismo nacional, a linguagem do marketing denominaria o percurso de “Triângulo do Forró”, uma vez que o mapa dessas ruas tem a configuração de um trilátero.

    Assim como em 87, curti todo esse São João sem saber que seria de despedidas. De Campina Grande e dos forrós. Ao completar 12 anos, a mudança familiar para o sertão me causou um impacto tão grande, que o retraimento foi inevitável. Nunca mais dancei na minha vida.

    DECISÃO QUENTE

    Decidir um campeonato já é uma quentura, imagine com o jogo decisivo às 10h da manhã, em pleno sertão paraibano, com seu histórico de alta temperatura. Se a Raposa conseguiu a vantagem do empate ao vencer o primeiro confronto, o Dino tem a seu favor o termômetro, adaptado que é ao clima local. O caldeirão vai ferver.

    SEM ESCOLHA

    Quem quer ser campeão não escolhe adversário e tem que estar preparado para encarar as adversidades possíveis e inimagináveis. O time vem adquirindo a confiança da torcida, visto que, sob o comando de Ranielle Ribeiro está invicto e com atuações até convincentes. O que comprova que o clube agiu certo quando trocou de treinador, ainda no início da competição.

    ATLETA PARAIBANO

    Para quem não está lembrado, o lateral Aderlan, que usou a cabeça e marcou o primeiro gol do Bragantino na virada sobre o Corinthians, é aquele revelado pelo Campinense e com passagem também pelo Treze. O atleta vem firme como titular do time paulista.

  • Providência do Jota

    11/06/2021

    Não foi mera coincidência um trio de bebês da terceira geração de primos ganhar nomes cuja letra inicial é J, o J de Jesus. Também não acredito em entendimento familiar nessa simultaneidade; talvez influência sonora, visto que dois deles emitem a mesma sonoridade.

    Reforça-se a tese dessa influição observando-se que todos nasceram no segundo semestre do mesmo ano – 1973. Na sequência, Janarc, filho da minha tia Neném (Francisquinha) – agosto; Joab, meu irmão caçula - setembro; Josimar, do tio Clemilcio e meu afilhado – dezembro.

    A opção pelo “J” de Jesus no nome dessas crianças foi, creio, uma busca inconsciente e antecipada desses casais ao auxílio divino de que precisariam para os momentos mais cruciais que viriam com o tempo. Uma providencia. Afinal, ninguém imaginava duas tragédias e um vírus impiedoso no meio do caminho.

    Nem a adolescência vivida a 180km de distância impediu que eu e a mana Socorro fôssemos padrinhos de Josimar. Nas nossas férias, aqui, o tio nos convidou e o batismo de seu novo rebento foi realizado no Convento São Francisco, no bairro da Conceição.

    Josimar cresceu e buscou sua liberdade sobre duas rodas. Viveu essa liberdade ao extremo, até ela ser interrompida em 2001, pouco depois de completar 27 anos, numa colisão entre sua moto e um ônibus em plena 15 de Novembro, rua em que a família ainda mora.

    Ainda em 2001, a tragédia veio a galope, naquele domingo de dezembro de vaquejada num dos parques locais. Após rara folga dominical, Joab, o nosso irmão caçula, cansou deste mundo e resolveu, aos 28 anos recém-completados, ficar mais perto de Deus.

    Janarc, cuja sonoridade inicial do nome destoa da harmonia sonora dos parentes, cresceu disposto a seguir a profissão do pai, caminhoneiro dos bons. Depois de trabalhar em várias empresas e penar em alguns momentos com quebra-galhos, conseguiu adquirir seu próprio caminhão.

    Mesmo nas dificuldades dessa pandemia, Janarc vinha segurando o volante de sua vida, conseguindo os fretes necessários para pagar seu veículo e custear suas despesas. Mas o vírus traiçoeiro veio a reboque e o sintomatizou; na segunda-feira, dia 07 de junho, não resistiu às complicações da Covid-19 e nos deixou.

    MANO SESSENTÃO

    O meu irmão Afonso, que mora em Teresina, chegou à casa dos 60, no último dia oito. Terceiro na hierarquia de nascimento de uma prole de 13 irmãos, é um exemplo de resiliência, superando todas das dificuldades com alegria e humor. No grupo da família, postei a mensagem que segue

    “Tão bom chegar aos sessenta com jeito de adolescente responsável e exemplo de adulto caridoso; agora idoso animado. Nem adiantou a bariátrica, pois o coração permanece obeso de bondade. Vida longa”.

    SÍNDROME DO KM 12

    Houve um período, nos meus tempos do Diário da Borborema, em que o Campinense não podia passar em São José da Mata sem deixar um ponto quando atuava em gramado sertanejo. A torcida já estava apreensiva, principalmente nos jogos em Patos.

    Isso motivou que eu colocasse, na página esporte, a seguinte manchete: Campinense tenta superar a Síndrome do Km 12. Mais de 30 anos depois, a Raposa tem que superar essa síndrome. Se quiser ser campeã de 2021.

  • A camisa branca do padre

    03/06/2021

    Sou de um tempo em que o uso diário da batina pelos padres era uma unanimidade. Tempo de minha infância feliz, nas terras do meu avô no Cruzeiro; tempo de uma adolescência que praticamente não tive, no sertão paraibano.

    Após o Concílio Vaticano II os sacerdotes iniciaram um processo tímido de desuso das vestes eclesiásticas, embora a obrigatoriedade permaneça até hoje, conforme reza o Código de Direito Canônico, no cânone 284.

    Nunca esqueci o padre que evangelizava montado numa Lambreta pelas ruas do hoje bairro Santa Cruz. Naquela noite, como de costume, acompanhava meu pai no bate-papo com amigos, reunidos na mercearia próxima.

    Padre Tadeu (?) parou a motocicleta, arregaçou a batina, levantou a perna e desceu. Pra surpresa geral, entrou no pequeno comércio, pediu uma carteira de cigarro, acendeu um, sentou-se e ali permaneceu abençoando a conversa.

    Também nunca esqueci o padre Acácio, na austeridade do exercício sacerdotal na cidade de Malta, onde nossa família morou por três meses. O rigor de sua batina preta cobria os fiéis; não permitia mulher entrar na igreja de calça comprida.

    Não há como esquecer igualmente padre Levi, suando a batina nas passeatas e “burreatas” em sua campanha na eleição municipal de Patos, em 1972, depois de uma experiencia na vizinha São José do Bomfim.

    Sem a batina, o colarinho romano serve para identificar que aquele homem aparentemente de vestes comuns não é uma pessoa comum, mas que serve a Deus depois de longo período de estudos. Foi ordenado, é um sacerdote.

    Certamente não foi por displicência que aquele casal evangélico chegou ao restaurante e, ao avistar um jovem de camisa branca, em pé, observando o ambiente, procurou ser atendido por ele.

    - Boa noite! Arranje, por favor, uma mesa - pediu a moça. - Eu não trabalho aqui, senhora - justificou o homem. O namorado, até então católico, dissipou o engano da companheira, que não reparara o detalhe do colarinho. - Ele não é garçom, minha filha. É padre.

    AINDA HACHID

    Na coluna anterior, destaquei a generosidade de padre Hachid em nos presentear, principalmente em datas importantes. Ainda seminarista, ele nos mimou, no Dia dos Pais, com uma preciosidade que é uma das minhas leituras favoritas. O livro A palavra é filha do silêncio, antologia dos artigos de Dom Luís Gonzaga Fernandes, publicados nos jornais entre 1981 a 2003. Quando iniciei sua leitura, fiquei com remorso. De não ter lido os artigos do querido bispo na época.

    DEDICATÓRIA

    Com uma linda e compreensiva caligrafia, a dedicatória já nos dava um alento do padre que Hachid seria. “A vida coloca pessoas especiais em nosso caminho e cabe a nós nunca distanciarmos delas. Se o bom Deus permitiu que nos conhecêssemos, ele tinha um propósito. Peço a Deus por você, por Margarida e sua família. Que Ele cubra a sua vida de bençãos. Reze por mim. Para que eu seja como Deus quer e sua Santa Igreja necessita. Feliz Dia dos Pais! Abraços do Diác. Hachid Ilo”

    MEMÓRIA

    A leitura sempre nos traz novas descobertas e nos enriquece com ensinamentos, além de espantar a solidão. E estimula a memória. Quando li sobre a morte de Caroço de Pinha, torcedor-símbolo do Botafogo de João Pessoa, pensei ser uma pessoa desconhecida. Mas lendo a coluna do médico Givaldo Medeiros intitulada “Antônio no andar de cima”, no MaisPB, tive a minha memória atiçada. Aí lembrei dele vendendo jornais pelas ruas de Patos, na nossa adolescência naquela cidade.

  • PADRE HACHID

    28/05/2021

    A Equipe Nossa Senhora da Guia, da qual fazemos parte com mais cinco casais, vive a orfandade espiritual desde o passamento de padre Hachid Ilo, cujo peso não resistiu ao ataque impiedoso da Covid-19. Hachid nos acompanhava, na condição de conselheiro espiritual, desde quando ainda seminarista e deixa a sensação de que na sua passagem terrestre, de tão marcante, foi profeta de si mesmo.

    Quando Hachid foi transferido para Picuí, legou um boneco – como ele gostava de nos mimar! – a cada casal da equipe, escrito com uma frase, no mínimo, premonitória. “Só a fé supera a saudade”, expressão essa que embasa a que minha mãe pronunciou, naquela madrugada triste de dezembro de 2001, quando perdeu o filho caçula. “Oh, meu filho, que dor que eu estou sentindo. Só Deus é maior do que essa dor”, disse, ao me avistar.

    A pandemia rareou nossos encontros, mas a tecnologia permitiu que as reuniões mensais fossem realizadas de forma online e nesse período apenas uma única vez nos reunimos presencialmente, respeitando as indicações de segurança. Quando não podia participar, Hachid enviava um áudio ou vídeo com a Homilia da Palavra e o comentário do tema estudado no mês.

    Não é exagero dizer que Hachid foi quase unanimidade no exercício de seu sacerdócio; sabe-se que ele agradou crianças, adolescentes, jovens, adultos, idosos, casados, viúvos e separados. O sucesso dos encontros criados por ele, além da dinâmica que impôs aos tradicionais EJC, ECC e EC, atesta esse posicionamento. Todos com números recordes de participantes, quer no recebimento da graça, quer na disposição do voluntariado.

    Hachid falava a linguagem de todos, fazendo-se entender por todos. Lembro de uma reunião em nossa casa, quando nossa filha tinha que sair para uma confraternização entre amigos. “Vai pra night”, disse, quando ela pediu licença, interrompendo o encontro, para passar no meio de todos.

    Certa vez confirmou que fora a um bar em que os jovens encontristas se confraternizavam. “Cheguei lá comi alguma coisa, não demorei, mas marquei minha presença e fiz a minha evangelização”, justificou. As opções musicais de Hachid também o ligavam muito aos jovens.

    Verdade, seriedade e divertimento são algumas das palavras que definem Hachid nas reuniões. Atiçava a todos com uma brincadeira para no contrapé nos mostrar a seriedade que o temo estudado exigia. Aí soltava o seu bordão preferido naquele momento descontraído - “Oh, que povo ruim!”. E todos caiam na gargalhada.

    Na hora da partilha, que é o momento do lanche ou da refeição, conforme o combinado pelas mulheres, ele se soltava ainda mais. Numa delas, um dos nossos lhe sugeriu uma dieta. “Não! Eu já deixei refrigerante. Vocês se estressam com trabalho, com filhos, etc. Mas podem coisar. Eu não posso coisar, como”, brincou, lembrando as várias atribuições que tinha, como vigário diocesano.

    Certa vez, padre Hachid solicitou uma doação para a igreja a amigo nosso, recém-casado. Mesmo com a doação garantida, padre Hachid não resistiu à oportunidade de descontrair ainda mais o doador com uma das suas. “Se você não mandar isso, eu faço a oração da impotência para você”, brincou.

    Padre Hachid também prestava orientação eclesiástica para outra equipe, a Nossa Senhora de Fátima. Com a ida para Picuí, impossibilitado de acompanhar as duas, demostrou seu amor pelos mais velhos, optando pela de maior faixa etária, justamente a nossa.

    Eu posso até estar cometendo uma heresia - e se for o caso, peço perdão -, mas padre Hachid foi profeta de si mesmo. Ao pressentir a brevidade de sua morte. Ele foi profético quando deixou gravado, além da frase “Só a fé supera a saudade”, todas as homilias e comentários mensais deste ano da nossa equipe; foi profético quando numa das suas lives fez o comentário realista sobre a morte. Foi um profeta de si mesmo. Que nos deixou um alerta precioso, a nos aconselhar a “não flertar com o pecado”.

    RECADO AO JOVEM

    Quando as Equipes de Jovens de Nossa Senhora, de Campina Grande, planejavam algum encontro, um retiro, o Padre Hachid era o primeiro lembrado para a lista de palestrantes. No livro de estudos do ano passado, ele escreveu um texto e uma frase sua ficou marcada entre eles, com repercussão até em Portugal: Lembre-se o Jovem: Jesus lhe ama como você é, esperando que um dia você seja como Ele quer.

    OUTRA PERDA


    Além de reduzir o clero da Diocese de Campina Grande, a Covid-19 desfalcou a Catedral de Nossa Senhora da Conceição de um dos seus servos leigos, Márcio Almeida Gomes, o Márcio da Telha Forte. Ele, com sua Sandra, coordenou o nosso ciclo, quando fizemos o ECC em 2002. À família, nossas condolências. Eu disse a padre Hachid da positividade de Márcio; poucos dias depois ele testou positivo.

  • A segunda foi a primeira

    21/05/2021

    Como mostrava a propaganda do sutiã da década de 80, tudo que é primário a gente nunca esquece. Também não vou esquecer a nossa aventura - minha e da consorte – de quarta-feira, 19 de maio, em busca da segunda dose, que acabou sendo a primeira, na pirâmide do Parque do Povo. Com direito a “dançar” uma quadrilha sem os acordes da sanfona, o batuque ritmado do zabumba e o tilintar do triângulo.

    A ansiedade começou no dia 6 de maio, dia programado pelo calendário de vacinação para a dose 2 e que acabou sendo adiada, sem previsão, em função do limite de fabricação do imunizante pelo Butantã. Essa ansiedade aumentou quando anunciada o agendamento da nova data, mas quando acessei o site, constatei ser destinada a quem tomaria até 28 de abril.

    O início da semana foi esperançoso com o anúncio da chegada de novas doses da Coronavac, confirmada ainda na terça, mas sem o agendamento disciplinador, o que me pareceu estranho. Sem poder ir no horário previsto de 13h, pouco antes das 15h nos dirigimos ao Ginásio “Meninão”, local escolhido por nós – afinal, a primeira dose foi lá – e nem o avistar a longa fila de carros nos fez desvanecer.

    Ao seguir pela Av. Floriano Peixoto vimos que a fileira já vinha da Rua Tranqüilino Coelho Lemos, aquela do IFPB; contornamos o giradouro do Canal de Bodocongó e já na garagem da Nacional dimensionamos a quilometragem do alinhamento veicular. Permanecemos no mesmo sentido e estacamos na rabeira da fila, na escola técnica para contornar após a instituição federal, pegando o rumo da imunização.

    Depois de 2h na quilométrica fila, com a sensação de alivio ao avistar o “Meninão”, chegando em frente ao inacabado Hospital da Criança, o retrovisor descortina a viatura da Guarda Municipal, rodando lentamente com a luz piscando. “Que é que a polícia faz tão devagar?”, me perguntei, ainda sem identificar o veículo.

    Pacientemente, na sua lentidão cada vez mais desacelerada, o motorista parava lada a lado a cada carro enfileirado, e o guarda do banco de passageiro, com extrema gentileza, nos fazia o favor de avisar a conclusão dos serviços vacinais, alentando ter continuidade a partir de 18h, no Parque do Povo.

    Passando de 17h, voltamos em casa, repomos as energias com um lanche restaurador e, de novo, tomamos o rumo da imunização completa. Na pirâmide do PP, a fila humana formava uma quadrilha improvisada sem os instrumentos característicos da regionalidade musical nordestina. Mas, claro, tinha o marcador, um senhor gordo, numa camioneta improvisada de palco, a controlar, adicionando certa energia na voz, os passos dos cansados “quadrilheiros”.

    Concluída de forma positiva essa aventura, penso que tomar a segunda dose acabei, feito o mano, tomando a primeira no Parque do Povo. Sem álcool.

    CONDOLÊNCIAS

    Minhas condolências à família de Adenize Queiroz de Farias, líder do Instituto do Cegos de Campina Grande, pela partida do patriarca Luiz Franco, no início desta semana. Homem de igreja, de uma serenidade admirável, sempre que nos encontrávamos, antes da pandemia, nos encontros do Terço dos Homens. “Era um homem muito sereno. Até diante das circunstancias da morte”, define Adenize.

    TRATAMENTO

    Embora a diferença de idade nossa fosse de pai pra filho, dispensava o tratamento cerimonioso e ele parecia gostar. Lembro de Luiz ainda da feira, no seu ponto de gelada que eu costumava frequentar até quando esteve em atividade. Em entrevista a Paulo Roberto, no programa Ponto a Ponto, da TV Itararé, Adenize destacou a qualidade do produto. “A melhor da Feira Central”, posição que eu endosso. A preferida era a de coco com pão doce.

  • A PRIMEIRA SEM ÁLCOOL

    13/05/2021

    A prole de 13 filhos lá de casa, da qual eu sou o primogênito, foi bem dividida pois composta de sete mulheres e seis homens. Nem a dupla angelical que engrossou as estatísticas de mortalidade infantil da década de 60 ampliou essa diferença, embora o caçula tenha, no desespero momentâneo de seus 28 anos, desfalcado o quinteto masculino que colocava no trabalho a quase totalidade de sua disposição diária. Sem tempo para o lazer ou divertimentos tipos festas dançantes.

    De família pobre, tivemos que iniciar cedo na labutação, principalmente os homens, dividindo o tempo entre trabalho e estudo; as mulheres se dividiam entre os serviços caseiros e a busca pelo saber. A necessidade de trabalhar e a vontade de estudar consumiram o tempo da prole a tal ponto, que uma das meninas já disse, depois de grande, que “a gente não teve adolescência”. No que concordo.

    A precocidade laboral nossa motivou a que poucos de nosso time aprendessem a dançar. Acredito que apenas dois ou três dos 11 irmãos criados sabem o remelexo no salão. Eu, nem com três na cabeça. De modo que a nossa fonte maior de relaxamento foi a etílica. Antes da Lei Seca mesmo, eu bebia todo dia, mas não o dia todo. Duas três doses para o almoço.

    Certa vez, um colega de jornal, na serenidade de sua voz, me acusou de viciado. “Mas não é alcoólatra”, atenuou, diante da inquirição do meu olhar e do semblante fechado. Mas há os mais dispostos, feito o mano Patrício; ele, igual a mim e aos outros, tinha ou tem cadeira cativa no Parque do Povo.

    Recordo com certa nostalgia, que perdi apenas três noites no Parque do Povo, no São João de 87. Na noite de São Pedro, saí direto para o trabalho. Imagine se eu dançasse! Anos mais tarde, compreendi ter sido minha despedida de solteiro, pois um ano e poucos meses depois eu me casei.

    Já Patrício, o quarto na escala familiar, conforme o nascimento, sabe aproveitar melhor do que eu os momentos no QG do Forró. Quando vai, sob a disposição etílica, passeia por todas as ilhas de forró, permanecendo mais tempo naquela que tem mais mulheres, as mais dispostas à dança. Não escolhe; segura a que suporta seus passos ébrios.

    Nos últimos anos, ele tem intensificado a luta para deixar a ebriedade e por isso tem permanecido mais tempo sem beber. Mas há uma semana, a pandemia que tira o povo do parque, levou Patrício de volta à pirâmide do complexo festivo central de nossa cidade. Para tomar a primeira dose, quem sabe um prêmio pela abstenção de meses.

    Levado pelo sobrinho Luciano, que registrou a imagem do momento, Patrício fez questão de dividir a emoção colocando a foto no grupo da família. “A primeira dose no Parque do Povo sem ser de cachaça”, legendou, evidenciando que na sobriedade também tem seus momentos geniais.

    CASSIANO

    Ouvir Cassiano, que morreu no último dia 7, nos meus momentos de descontração musical, cantando A Lua e Eu, sempre foi uma das minhas preferências. O reconhecimento ao seu talento, depois de sua partida, não me surpreende, pois sempre acompanhei os especialistas, dos quais lembro Nelson Mota, em sua coluna no Jornal da Globo, exaltando a performance do paraibano. Acredito que será sempre lembrado não com a popularidade de Jackson do Pandeiro, mas igualmente pelo talento criador e inovador na MPB.

    NATURALIDADE

    Quando escuto Cassiano, lembro também de uma voz marcante na radiofonia paraibana, o saudoso Geraldo Batista. No rastro do estouro nacional de Cassiano em 76 e da música A Lua e Eu, Batista gravou uma vinheta, com seu vozeirão inconfundível, destacando a naturalidade campinense do cantor e compositor. Ao contrario do artista, que foi embora e nunca mais voltou aqui, Geraldo tinha um orgulho imenso de Campina Grande. Mesmo sendo de fora, cearense.

    PROFISSIONALISMO

    o narrador Romildo Nascimento, da Rádio Cariri - 101 FM, segurou a emoção e mostrou o senso de profissionalismo que tem na cobertura de Treze 2 x 1 Nacional de Patos, há uma semana. Por volta de 5 minutos do segundo tempo, ele soube do falecimento de sua mãe e reuniu forças para narrar a partida até o trilhar do apito final. Profissionalismo de gigante.

  • PROSA DE FREGUESIA (XXIX) - Ação maternal, reação filial

    06/05/2021

    Se um filho dimensionasse o valor, a representatividade e o que é uma mãe em sua vida sequer falaria abusado com ela. Na minha longa jornada comercial, vi e ouvi muitas grosserias e indelicadezas de filhos com suas mães. Quanto isso me doía! Mas também muitas gentilezas, muitas doçuras, muitas ternuras filiais cantaram em meus ouvidos; igualmente ações de cuidados, de zelos, de estima ficaram desenhadas na retina de meus olhos.

    Nunca esqueci aquela senhora que eu atendia, nos meus tempos de “Zepa”, rica e já avançada na idade, a delicadeza em pessoa, o quanto ela foi maltratada pelo filho prepotente, empresário de destaque em Teresina. Tudo por causa de uma carne de sol que ela comprara para o seu almoço regional, nas poucas vezes que a visitava, e ele não gostou. A vergonha foi tanta que ela deixou de nos prestigiar.

    Também está viva em minha memória a aspereza maternal daquele jovem, a mãe querendo um tipo de carne e ele optando por outro. “A senhora tem que comer da que eu comprar”, impôs. A dureza filial cortando-a por dentro e os olhos ameaçando-a por fora, deixando-a muda, impactada, sem ação nem reação.

    Igualmente, lembro daquela senhora que sempre brincava comigo, as vezes dizendo alguma doidice, que se sentiu ofendida pela filha, na reação encabulada a uma dessas brincadeiras. “Não me chame de doida. Respeite-me, que sou sua mãe e nunca mais me fale desses modos”, motivando um imediato e delicado pedido de desculpas da descendente.

    Há situações em que não há grosseria, mas a resposta do rebento, mesmo dita de forma amena, provoca uma certa surpresa pelo significado de contrariedade dos ensinamentos. O casal vinha no carro com o filho, que faria vestibular naquele dia; ela desceu e ficou no nosso açougue enquanto o marido foi levar o filho no local das provas. Entrando, ela virou-se de costa e perguntou: meu filho rezou pedindo a Deus para tirar uma boa nota? “Ele não vai fazer a prova por mim”, respondeu.

    Enumerar o que as mães fazem pelos filhos é impossível uma totalização e só reforça a máxima de que “uma mãe é para 100 filhos, mas 100 filhos não é para uma mãe”. Não posso deixar de exemplificar a ação de minha ex-cliente e sempre amiga Sueli, que resolveu produzir e vender salada de frutas para ajudar nas despesas de formatura em Medicina de sua filha Daisy. Hoje, estão colhendo o fruto das frutas retalhadas.

    Meus filhos costumam se encher de impaciência com a mãe, por exemplo, quando têm que sair juntos, e ela demora a se arrumar. Eles, então, ameaçam não esperar. “Meu filho, sua mãe esperou nove meses por você na barriga e você não pode esperar um minuto por ela?”, reajo sem disfarçar o ressentimento.

    Quando presencia as indelicadezas e as brutalidade maternais dos filhos, há gente que reage dizendo que vão se arrepender quando a mãe morrer. Não precisa esperar a fatalidade. Basta um distanciamento necessário como a mudança para um Estado distante ou país. Amiga minha que há quase 30 anos mora em terras sudestinas certa vez me confessou o arrependimento do tratamento dispensado à sua genitora, na sua adolescência aflita. “Se eu soubesse que viveria tão distante, teria tratado melhor a minha mãe”, lamentou.

    SEMANA DAS MÃES

    O casal animador do mês da nossa Equipe de Nossa Senhora, Silvaneide e Ronaldo, produziu um vídeo com os filhos falando sobre suas mães. Se a fala dos rebentos já foi uma surpresa, imagine a publicação antecipada desse vídeo no grupo de WhatsApp, na última segunda-feira. A emoção foi geral dessas seis mães equipistas. Em vez do Dia da Mães, o casal promoveu a Semana das Mães.

    EXOTISMO NO FUTEBOL

    Depois da intervenção da CBF na Federação Paraibana de Futebol e a decisão de trazer árbitros de fora, chama atenção os nomes exóticos anunciados na escala de cada rodada da competição deste ano. Schumacher Marques, Arkilson de Lima, Ruthyanna Camila, Herioberto Henrique, Crisvalesco Marco, Altobele Leandro, Suelson Diógenes, Oberto Santos, Kildenn Tadeu, Wagner Reway, Afro Rocha... O danado é quando o torcedor usar o exotismo no xingamento.

  • PROSA DE FREGUESIA (XXVIII) - O cheiro de pólvora

    29/04/2021

    Eliazar costuma justificar a grafia diferente do seu nome da nomenclatura bíblica como erro de cartório, cujo escrivão trocou o “e” pelo “i”, mas acredita ter sido providência divina fazendo valer a significação nominal do filho de Aarão, “ajuda de Deus”. “Eliminou todo azar da minha vida, daí eu ser um vitorioso”, brinca. Reforçando essa crença, não deu azo para o azar e pôs fim à triangulação amorosa que colocou em prática em solo serrano.

    A intenção de Eliazar sempre foi de permanecer na função que galgara de supervisor de vendas, liderando equipes nos sete estados do Nordeste em que a empresa distribui sua linha de produtos. A mudança de rumo deu-se quando a diretoria resolveu promovê-lo a gerente da filial campinense; desafio aceito com a facilitação amiga que foi possível a transferência da mulher para a capital, ela funcionária federal e com raízes paraibanas

    A definição possibilitou a Eliazar colocar em ação a logística planejada para conciliar família e trabalho em 130 Km de distancias. Às 7h de toda segunda-feira chegava na empresa, passando a semana e retornando para casa na sexta à noite ou, quando tinha muito o que resolver, após o meio dia do sábado. Em situações especiais, a mulher é que vinha, a exemplo do mês de junho.

    Conhecido por suas habilidades práticas, logo adaptou-se à nova rotina, sobretudo à função. Inicialmente, hospedando-se em hotel, mas dois anos depois resolveu adquirir uma casa em bairro próximo ao trabalho, mais por questão de investimento do que mesmo necessidade.

    Se antes ele variava a frequência em restaurante ou bar para suas refeições diárias e as doses relaxantes após o expediente, fez ponto em aconchegante restaurante da vizinhança, cativado que foi pela comida caseira e a simpatia do casal que dirigia o estabelecimento.

    Com o tempo, Eliazar foi percebendo que o dono dispensava cordialidade apenas à clientela; a intimidade conjugal foi mostrando ser ele um rosário de impaciência e implicância com a mulher, encarregada mais da chefia da cozinha, embora nas horas de menos serviços atendesse também no salão. De fato, um grosso na vivência da conjugalidade.

    Naquela noite, o marido foi exageradamente ríspido com a companheira. “Oh homem bom de tomar um chifre!”, resmungou, em desabafo ameaçador endereçado aos ouvidos atentos de Eli, que tomava sua cerveja em mesa próxima, na lavagem das três doses da pura cachaça que tomara antes.

    A reação da mulher foi a senha para a possível conexão amorosa entre os dois. Eli ficou esperando a oportunidade, que surgiu no início daquela tarde quando já voltava pra casa e a avistou entrando numa loja.

    Sem pressa de chegar, estacionou o carro, deu um tempo e depois também entrou no estabelecimento objetivando disfarçar a casualidade do encontro. Ao ver a presa, fez que olhava algum produto, mas permaneceu atento aos seus movimentos, que já foram em sua direção. Dos cumprimentos ao oferecimento da carona aceita, tudo foi muito rápido. “Deixa-me passar no caixa”, disse ela.

    Saindo da loja, os vidros fumês do luxuoso carro davam à mulher a tranquilidade que o momento exigia; também a calma que Eli precisava para a investida certeira. “Tenho que entrar ali, mas é rápido”, começou. “Sem problema”, concordou. No avançar na movimentada avenida, outra investida. “Um calorzão desses é bom um sorvete”. O silêncio concordante animou um galanteio mais incisivo. “Ou seria uma cervejinha?”.

    A concordância silenciosa dissipou qualquer dúvida em Eli, mas à medida que o carro avançava achou necessária a última tentação. “Há um cantinho ali que a gente pode ficar sozinho, bem à vontade”, apelou. A mulher permaneceu muda, mas na proporção que se aproximava da presumilidade, começou a esfregar as mãos uma à outra, estalando os dedos, num nervosismo que lhe dava ciência do momento que lhe esperava.

    Eli nunca esqueceu essa preliminar e por várias vezes me relembrou. “Foi o melhor dessa primeira vez de nós dois”, confessa, recordando o romance que durou mais de ano e só acabou quando ele começou a sentir o cheiro de pólvora no ar, preservando a crença da significação do seu nome.

    REBAIXAMENTO

    A interação com a imprensa escrita de Santa Catarina em 86 e 87, com o Treze disputando o Certame Brasileiro, legou-me uma certa ligação afetiva com os principais clubes locais. De modo que senti o rebaixamento do Criciúma à segunda divisão do próximo ano, que tem um histórico de 10 títulos conquistados, além da Copa do Brasil 1991. Em 87, recordo, pela Copa União, jogando no Amigão, o time perdeu para o Galo por 2 a 1. Mas, quem muito se abaixa...

    SEM BRINCADEIRA

    O Galo baixou a crista ao sentir o cheiro cristalizado do time de Cruz do Espirito Santo e perdeu pontos. O empate sem gols, em estádio neutro, prova que o São Paulo não está pra brincadeira. Enquanto o gramado do Carneirão está encharcado, o Carcará do Engenho embriaga os adversários e se mantém colado na liderança.

  • PROSA DE FREGUESIA (XXVII) - O remédio

    22/04/2021

    Não foi fácil para Milton aceitar a nova vida depois que um AVC limitou seus passos, reduziu seus movimentos braçais e abrandou sua vitalidade. Vivendo a lascividade desde a juventude, conciliava o excesso de trabalho diário com as aventuras etílicas e amorosas. Polígamo, nunca rejeitou a disponibilidade voluptuosa de duas mulheres, afora as conquistas que lhe rendiam um “pulo fora” quase toda semana.

    Casado desde jovem, teve a sorte de encontrar uma esposa que aceitou a vida que levava até a conta chegar. E chegou cedo, aos 55 anos. “Botando a ração em casa...”, dizia a mulher, esboçando um sorriso conivente, embora os olhos dissessem outra coisa, quando chegava ao nosso comércio para as compras semanais e era incitada a comentar as aventuras do marido.

    Com exatas duas semanas da troca de alianças, Milton já demostrou sua disposição boêmia Acabado o expediente no seu mercadinho, iludiu a companheira com “vou ali receber um dinheiro de fulano” e só voltou no outro dia, com o estabelecimento já aberto e ela à frente. “Comecei tomar umas cervejas com ele, misturei com outra bebida e adormeci”, justificou. Ela fingiu acreditar.

    A semana seguinte foi caseira, mas 15 dias depois a mesma desculpa. Assim permaneceu Milton por cerca de dois anos naquela de “uma semana é minha, a outra é tua”. Até que apareceu aquela morena alta, esguia, corpo violão, e ele encurtou essas saídas a todo final de semana, também com encontros quase diários à noite, sob o pretexto de assistir o jornal da TV com os amigos.

    Essa rotina durou cinco anos e só acabou quando outra morena, mais nova e mais bela diante de seus olhos, apareceu no seu negócio e não resistiu às flechadas incisivas de seu olhar. Nova parceria formada, permanecendo a prática da teoria da triangulação amorosa.

    Essa triangulação ainda dura, em que pese os danos causados pela doença, e resultou em mais dois filhos, perfazendo um total de meia dúzia, com o quatro da união oficializada. E todos são unidos e lhe dão total assistência; bem empregada, a morena nada exige.

    Nesses 10 anos de limitações, a família de Milton viveu momentos oscilantes de preocupações e hilaridades. Certa manhã, conseguiu escapar dos cuidados familiares, fretou um taxi e foi atrás, em bairro bem distante do seu, daquela primeira morena. Foi informado de que ela já mudara de plano. Outra vez, numa das inúmeras consultas, colocou o médico contra a parede. Após a auscultação e das respostas aos questionamentos, implorou: doutor, passe um remédio sexual pra mim.

    EFEITO IMEDIATO

    A Raposa não resistiu à cristalização do São Paulo e logo na abertura do Certame Estadual amargou uma derrota. Com os 7 x 1 do Bahia atravessados, a reação imediata foi a demissão de Ederson Araújo e a contratação repentina de Ranielle Ribeiro. O danado é que tem torcedor – e até site – confundindo o nome do treinador. Rebaixaram a senadora.

    JOÃO ALFREDO

    A covid-19 continua pregando surpresas desagradáveis. No último dia 15 levou João Alfredo lateral do Treze na década de 80. Há muitos anos não o via, mas por várias vezes me encontrei com o seu irmão, Marcos Antônio, também ex-atleta alvinegro. Quando levei minha mãe para tomar a segunda dose no Campestre, entrei na fila justo em frente ao seu Ponto Extra, que quase 9h ainda estava fechado. Era ele já internado por causa do vírus impiedoso.

    BOA IMPRESSÃO

    “Campina Grande está de parabéns. Limpeza urbana comparável à de Santa Catarina e percebi que tem pouca criança (trombadinha) na rua”. Comentário de uma campinense que há quase 40 anos mora fora e hoje reside em Camboriú (SC) em grupo de amigos no WhatsApp, depois de passar 15 dias na cidade. Promete encurtar suas vindas depois.

  • PROSA DE FREGUESIA (XXVI) - A dureza da conciliação

    15/04/2021

    Foi na madrugadinha de uma fria segunda-feira do dia 12 de abril da refrigerada Campina Grande de 1976 que entrei de forma definitiva para o comércio, atraído pelo convite alentador do tio Cloves, irmão de minha mãe. Antes, o estágio caseiro, ainda criança, obedecendo as ordens do meu pai, que abraçara o jeito ambulante de vender – e vendia de tudo -, após deixar a condição de motorista profissional.

    O estágio maior fiz na adolescência, quando, a partir dos 12 anos, os dias de sábados e domingos foram reservados às aventuras juvenis desbravando o sertão paraibano e até parte do potiguar, na venda ambulante de bodega em bodega. É que, em dezembro de 70, a família se mudara, por imposição paterna, para a cidade de Malta e depois de três meses iniciara a longa volta, abrigando-se em Patos. Até que retornei em definitivo em janeiro de 76.

    Antes, no estágio infantil, fiz constantes caminhadas pelos bairros do Catolé e Jeremias vendendo os condimentos preparados e embalados em nossa casa, no Cruzeiro. Talvez por isso sou hoje adepto número 1 da caminhada como principal meio de atividade física, contrariando os filhos que insistem em me recomendar academia para “fortalecer a musculatura”.

    Se no longo estágio nas fases infantil e juvenil preparava e vendia condimentos para temperar o sabor dos alimentos, passei a vender um produto (carne) para ser temperado, em paradoxal exemplo de como é a vida. O cheiro insosso de açougue, sentido nos primeiros meses de trabalho, ainda está impregnado nas minhas narinas, embora nunca mais o senti ao chegar a um estabelecimento especializado, depois de me acostumar com o aroma.

    Pra ser comerciário, tive que aprender a ser açougueiro ou marchante, como era comum se chamar. Foi uma época dura, de ralar muito e de trabalhar todos os dias da semana, além de chegar meia-noite da sexta para o sábado à feira central. Inicialmente, morando de favor na casa de uma tia, na Liberdade, saindo às 4h15 para chegar às 5h; a partir do ano seguinte, estudando à noite e dormindo no local de trabalho, laborando o dia todo.

    Essa dureza resultou em duas reprovações no Estadual da Prata, apesar dos murros em cima do birô, desferidos por Francisco Celestino Filho, predileto engenheiro civil e civilizado professor de Matemática, para me acordar em plena aula. Sem poder continuar no Gigantão, fui concluir o terceiro ano no Colégio 11 de Outubro e nova reprovação, agora com aprovação no Vestibular. Sorte que o professor entendeu a situação e me empurrou para a universidade.

    Formado, consegui emprego no Diário da Borborema, conciliando a atividade jornalística com a comercial, tendo a compreensão do tio, até poder abrir o meu próprio negócio. Depois, mais quase sete anos no Jornal da Paraíba, sempre na conciliação necessária, quando a transferência de suas editorias para o litoral começou a fechar o mercado impresso por aqui. Aí, comecei a viver na exclusividade do comércio. Valeu a pena! Só não valeu mais porque uma maldita clandestinidade ainda me impede um merecido ócio remunerado.

    CERTAME ESCALONADO

    O Campeonato Paraibano de Futebol 2021, após dois adiamentos impostos por decretos pandêmicos, foi iniciado na quarta-feira, dia 13, com Treze 4 x 0 Atlético de Cajazeiras. A novidade é que, feito o pagamento de Estado ou Município, a tabela é escalonada, com as rodadas obedecendo uma sequência de dias. Além do jogo do Amigão, na quinta, 15, Sousa x Botafogo; sábado, dia 17, Nacional de Patos x Perilima, e domingo, 18, São Paulo Cristal x Campinense. Desconfiado, tem torcedor esperando que a Raposa não se embriague.

    SONHO REALIZADO

    Somente a partir de 1971, ao chegar em Patos, passei a acompanhar efetivamente o Campeonato Paraibano de Futebol. A curiosidade adolescente, a paixão pelo futebol e a condição de morar próximo ao Estádio José Cavalcante contribuíram para isso e até despertou em mim o sonho de ser repórter esportivo. Sonho realizado a partir de 85, inicialmente como colunista da Gazeta do Sertão e logo em seguida repórter do saudoso DB.

  • PROSA DE FREGUESIA (XXV) - A dose da discórdia

    08/04/2021

    A vacinação anticovid-19 que tanto tem acirrado o meio político na crescente avalanche da pandemia, também é motivo de discórdia no seio familiar. Casal amigo, com prole hoje exagerada de quatro filhos e ex-cliente, viveu momentos tensos com a mulher querendo tomar a primeira dose na surdina, mas sob a ameaça da exposição de foto ou de vídeo da ação defensiva nas redes sociais. Tudo causa de sua insistência em esconder a idade.

    O sacana do marido não se conteve e teve o atrevimento de me contar tudo. Logo na véspera, confirmado o agendamento de quem tem 64 anos, o primeiro round, quando um dos rebentos falou que iria postar no grupo da família. “Você não vai fazer uma coisa dessa”, disse. Diante da insistência, irritou-se ainda mais. “Não tem que dizer minha idade a ninguém. Respeite minha vontade”, apelou, já no timbre desconcertante de quem não contém a irritação.

    Até os “filhotes” que moram fora aqueceram o ambiente, solicitando aos manos as imagens. Quando soube desses pedidos, ligou imediatamente para eles, proibindo qualquer tentativa de socializar o ato nas redes. “Mas mamãe, a senhora com um corpo desse era para ter orgulho e não ter vergonha de dizer sua idade”, teria ponderado um dos distantes. “Nem pensar nessa possibilidade”, cortou logo, já querendo alterar a voz.

    No outro dia, para a ação de locomover-se ao local da vacinação “drive-thru”, tomou as providências no sentido de evitar dissabores em caso de encontrar algum conhecido, quem sabe da equipe de aplicação. Mudou o formato do cabelo, escolheu a máscara de maior amplidão e não esqueceu dos óculos escuros.

    Queria ir sozinha. Impossível, mesmo os dois filhos que continuam em casa tendo compromissos profissionais. O marido, com intenções paradoxais, fez questão da gentileza da companhia. Mas, prevenida, captou o momento de o marido ligar o carro, no andamento da fila, discretamente pegou o seu celular e o escondeu debaixo do banco do passageiro.

    Nem assim evitou contratempo na hora de receber a dose preventiva. Quando a delicada moça perguntou se os dois seriam vacinados, o marido tomou a dianteira. “É ela, o novo aqui sou eu”. Quase que a jovem se assustou com o semblante da mulher, na sua reação agastada. Ainda bem que na agilidade que lhe é peculiar em situações adversas, recobrou o sorriso e disse um “é brincadeira dele”.

    Amigo do casal há muitos anos, concordo com os filhos de que ela deveria confessar a idade. Com certeza, no mínimo ouviria frases tipo “você é muito conservada”, você não aparenta a idade que tem”. O marido costuma ouvir “tua mulher é muito nova”. Praticante dos exercícios das academias, além de malhar o corpo, conserva os cabelos impecavelmente pintados.

    Fiquei preocupado com o amigo, pois estou certo de que se ela souber da nossa conversa, vai passar um mês de jejum.

    PARABÉNS, MINHA MÃE!

    Ah, meus irmãos, como foi bom experimentar, primeiro, a maternidade dessa mulher! Foi tão bom que não sei nem como dizer a vocês. Também é bom podermos ter a oportunidade de retribuir com o mínimo o máximo que ela nos dedicou. E ainda dedica. Obrigado, meu Deus!

    Mensagem que postei no grupo da família, no Whatzapp, dia sete último, quando minha mãe, Cleonice, completou 81 anos. Eu, que sou o primogênito de uma prole de 13 filhos, dos quais 11 foram criados e 10 continuam vivos. Festejou a data oito dias após tomar a segunda dose da vacina.

    BAFAFÁ NA CÂMARA

    O paraibano Pedro Cunha Lima (PSBD) anunciou que vai se licenciar do mandato parlamentar na Câmara Federal a partir desta sexta-feira (09) por 121 dias para tratar de assuntos pessoais. Quem assume sua vaga é o suplente Rafael Pereira Sousa, mais conhecido como Rafafá, que chegará na Capital da República ostentando a inédita condição de primeiro deputado federal gay do Nordeste. Espera-se que o bafafá não seja tão grande.

  • PROSA DE FREGUESIA (XXIV) - "Quando o leite azeda"

    01/04/2021

    Fora do comércio há dois anos, vivo o paradoxo de observar com a retina de cliente como se comportam os profissionais da área e de antenas ligadas a ouvir o que eles falam na prática do atendimento em tempo duro de pandemia. Até sem querer, sou tentado a fazer um comparativo com a minha atuação quando estava em atividade. Confesso que tenho testemunhado mais profissionalismo no esforço concentrado ou até mudo de “´posso ajudar”.

    Nesse tempo, em apenas duas oportunidades cheguei a me decepcionar nessa nova rotina de só comprar. Curiosamente, decepções ocorridas em padarias distintas, em que pese nossa casa só consumir pão uma ou, no máximo, duas vezes por semana. As situações dilacerantes sucederam ao comprar o leite, na tentativa de não o adquirir vencido ou que não venha a cortar mesmo na validade oficializada, decerto traumatizado pelas vezes acontecidas.

    Perto de nossa casa, um pequeno ponto de venda de produtos de panificação foi reaberto há uns seis meses. De proporções diminutas, não comporta a fabricação de qualquer tipo do derivado do trigo, motivando o fornecimento por outra padaria mais estruturada. Mas é bem sortido. No início, testei o pão e me pareceu familiar. Gostando, perguntei de onde vinha e tive a constatação ser de origem já conhecida, pois comprara lá um certo período.

    O danado foi o leite oferecido, que, embora da marca líder, começou a azedar nossa relação cliente/vendedor. Não que acontecesse qualquer rusga, mas é que por duas vezes comprei o produto vencido e só observei depois que cheguei em casa. Nas duas oportunidades, a troca aconteceu com a gentileza cativante da mulher do dono.

    Desde então, em função da falta de acesso ao saquinho do produto – exposto na parte interna do balcão, passei a fazer perguntas do tipo “e a validade, está em ordem? ou o vencimento é quando?” Certa noite, pedi o leite e, ao ver a balconista com o saco na mão, fiz a indagação. “É... eu vendo produto vencido”, ironizou o dono, cortando a resposta da funcionária.

    Até pensei que ele estivesse brincando, mas quando vi o semblante fechado e o olhar fulminante, tive medo. Ponderei que em duas oportunidades levara, de lá, o leite vencido e que é um direito do cliente saber a validade. “Quando acontecer estar vencido, você me reclame”, gritou. No momento, ele se ocupava (ou se preocupava?) apenas com o caixa. Entendi ser isso o motivo da reação arrogante e pedi desculpas pelo aborrecimento causado. Nunca mais voltei lá.

    POEMA DAS LÁGRIMAS

    O amigo Jurandy França fez um poema sobre lágrima, a pedido de sua musa Leonora, e me enviou, via zapp.

    “São escoamento de dores, alegrias, saudades ou qualquer outro sentimento.

    São alívios em forma de suspiros que se desgrudam dos olhos, se lançam face abaixo e caem aos nossos pés, regando vitórias, perdas ou derrotas.

    Elas são sublimes! Perdem apenas para o ato de respirar ao surgimento do existir... Após a primeira respiração fora do útero materno, vem o choro regado por lágrimas... não sei se é de alegria por ver a luz ou de tristeza e medo, por deixar o conforto de um mundo puro, chamado mãe.

    Depois que eu li, confessei ao amigo que “Eu me alivio tanto quando verto lágrimas”. Sozinho, num canto que ninguém veja e ouvindo o Ato Penitencial Eu Confesso a Deus e a Vós Irmãos, de autoria de André Zamur. Como me restitui a paz e a serenidade!

    DEFINIÇÃO DE MÚSICA

    Padre Carlos foi nosso professor de Música, nas 5ª e 6ª séries do Vera Cruz, em Patos, na década de 70. Velhinho, mas com uma vitalidade impressionante, ficou famosa sua definição de música, lembrada até hoje pela maioria dos colegas, acredito. “Música é a arte de expressar o sentimento da alma por meio do som”.

    RECORDAÇÃO EM VERSOS

    Pedi ao colega cordelista Marcos Dias Novo, que também é músico, para recordar em versos os ensinamentos do querido padre, versos que seguem.

    Não esqueço meu velho professor/O reverendo e amigo padre Carlos./No coração está tudo bem guardado/Seu jeito simples e o que ele ensinou./As melodias que a gente entoou/E ele dizia expressem que é muito bom/Os sentimentos da alma pelo som./Fazendo assim vocês fazem bela arte/Mas cantem sempre com simplicidade/Quem faz assim desenvolve esse dom.

  • PROSA DE FREGUESIA - Sob o efeito da ebriedade (XXIII)

    25/03/2021

    O inseparável aparelho de mobilidade vocal foi o meio usado por Felipe, nessa pandemia, para comentar as ações do mano Felício, sob o efeito da ebriedade, após ler a última coluna. Achando pouco, aproveitou para recordar outros causos, mas queixando-se de que fora acusado pelo Rei do Meretrício de responsabilidade, em parte, por sua longa caminhada errante. “Logo eu, considerado exemplo da família”, lamentou.

    No tempo em que a Loteria Esportiva predominava e o número de ganhadores só era conhecido na noite de segunda-feira, Felipe e Felício descansavam nas redes da casa paterna, ouvindo rádio, enquanto o sono não os anestesiava, quando saiu o resultado da hoje Loteca. Apenas um acertador fisgou o valor resultante dos 13 pontos. “Se eu ganhasse um prêmio desses, mulher ia limpar o danado com nota de 100 contos”, disse Felício.

    Sem tempo de me recompor da gargalhada, Felipe recordou outra presepada do irmão, quando ambos, muito jovens, trabalhavam no mesmo local e lá dormiam. Estudante na Liberdade, Felício conseguiu arrastar, mesmo na sobriedade etílica após as aulas, uma garota até Monte Castelo, bairro da laboração de ambos, e já encontrou Felipe na quietude do adormecimento.

    Imerso na profundidade do sono restaurador, Felipe só despertou com a conversa baixinha dos amantes, terminada a diversão. “Acordei com a conversa dos dois e gritei: flaguei. A mina correu pra minha rede”, rememorou, mas garante que rejeitou a oferta, quando se lembrou do “pão com banha”.

    Felipe também contou uma situação em que por pouco Felício não foi vítima. Numa casa de prostituição que funcionava no primeiro andar no centro da cidade, surgiu uma confusão entre ele e outro. Sanados os ânimos, o oponente desceu e ficou na calçada, na agitação de sua ansiedade, quando o alegre porteiro desceu e o encontrou ainda com resquícios de exaltação, esperando para dar cabo do desafeto. “Não faça isso que ele é sobrinho de teu amigo fulano”.

    Após rememorar essas ações do mano, Felipe queixou-se de que certa ocasião Felício evocou, após tomarem “umas e outras” numa comemoração familiar, que fora ele quem o levou para desarnar, na ansiedade de sua adolescência, numa das casas do ramo, no bairro de Bodocongó. “Mas isso foi no tempo de minha juventude. Mesmo quieto, também vivi meus momentos...”, confessou. E não mais se falou de ebriedade nem de libertinagem

    É SÓ ALEGRIA

    Sou fã de Ton Oliveira, acho seu timbre de voz bem próximo de Lindu, o saudoso Gogó de Ouro do Trio Nordestino das antigas, e o acompanhava na apresentação de Cantos e Contos da TV Correio, nas manhãs de domingo. Depois foi substituído por Cléber Oliveira e eu fiquei a me perguntar por Ton. Até descobrir que ele estreara o É Só Alegria, às 10h, na TV Borborema. Desde então, mantenho assiduidade ao programa, também ao filho de Joacir.

    É SÓ ESCURO

    Domingo último, o programa foi excelente, com os Três do Nordeste. Não entendo, não tenho especialidade no assunto, mas vejo algo estranho. Por mais que as estrelas brilhem, há um escuro que empana o brilho das estrelas do programa. Acho que falta mais iluminação ou então é o excesso de cores escuras no ambiente. Em qualquer ângulo que a câmara foca, aparecem as sombras do apresentador, dos artistas e dos músicos no piso, nas paredes e até na face, quando de chapéu. Forró é bom no escuro. Mas no sítio.

    INSPIRAÇÃO

    A nossa irmã da Equipe de Nossa Senhora, Soraia César, parabenizou Margarida, minha mulher que aniversariou no dia 23 último, com a seguinte mensagem: Que seu dia seja alegre e LEVE, igual a você. Logo me veio a inspiração para falar da leveza dessa flor que me perfuma há mais de 30 anos.

    TUA LEVEZA

    Ah, “A Insustentável/Leveza do Ser” .../Que me leva,/Que me traz./Que me rejeita, /Que me atrai./Que me aceita/Que me ajeita, /Que me satisfaz./Que me confia;/Que não desconfia/Que a vida é leve,/Que a vida é curta,/Que pode ser longa./Que longa-metragem! /Que conta a história, /Que grande voragem! /Que não nos destrói, /Que só nos constrói. /Que grande vantagem! /Que bênção do Pai!

  • PROSA DE FREGUESIA - O ébrio e o poeta (XXII)

    19/03/2021

    Quando o pai resolveu registrar de Felício o caçula da prole, decerto não imaginava que o insólito nome rimaria com a maior sensação de prazer do filho, já a partir da adolescência. Até se culpa dessa profecia diabólica. Além dos bares da vida, Felício tem nos locais de prostituição sua grande fonte de divertimento, a ponto de, controlado que é, ter crédito junto à maioria das mulheres das casas que semanalmente visita.

    Por nunca ter casado, Felício se constitui em exemplo de coerência. A mãe lamenta essa solteirice opcional; queria uma mulher cuidando do filho, com o zelo que lhe destinou desde o nascer. Ele é coerente ainda quando reserva parte do salário para as despesas da casa materna, da qual nunca saiu. Sob o efeito da ebriedade, costumava vir ao nosso açougue adquirir a gorda mistura dominical até quando estivemos em atividade.

    A responsabilidade é outra virtude admirável na personalidade do rei. Há 30 anos labuta na mesma fábrica de calçados, beneficiado por certo pela máxima de que “sapateiro não trabalha na segunda”. Não bebe nos dias ou horas de expediente e sempre está disposto a umas horas extras, que é “para ajudar nas minhas farras”.

    Ainda na infância Felício demonstrou tendências alcoólicas. O pai contratara um amigo pedreiro para uma pequena reforma na casa. O profissional gostava de tomar a dose do almoço e pediu para um dos presentes ir à quitanda mais próxima. Logo, Felício se ofereceu para o serviço, levando o copo. “Parece que beberam um pouquinho, essa veio pequena”, desconfiou. “Bebi pouquinho, mas bebi”, confessou Felício, em conversas à parte com os irmãos.

    Nos bares que frequenta, Felício conserva a amizade dos proprietários e funcionários, em função da plausibilidade de sua perturbação etílica, embora lhe aflore, após ingerir algumas geladas, o costume excessivo de cumprimentar a todos apertando a mão. Ao sair, sai falando com conhecidos ou não, sempre com a mão aberta para a saudação ébria. Foi numa dessas andanças etílicas que Felício me surpreendeu, na longa avenida que dá acesso à sua casa.

    Numa confraternização natalícia familiar, fomos paralisados pelo som nas alturas e passante de uma carreata, motivando a que todos se dirigissem ao portão ou se aglomerassem na calçada. De longe avistei Felício já vindo em nossa direção, os olhos apertados, contrastando com o sorriso largo, denunciando que bebera.

    Após o característico aperto de mãos, ficou conversando comigo, mas sempre observando a movimentação política, atento a quem ia nos carros, correspondentes aos acenos de candidatos e apoiadores. De repente, com o sorriso cativante de sempre, Ronaldo Cunha Lima acena para o nosso lado.

    Calmo e extremamente discreto na sobriedade do dia a dia, Felício não se conteve aos acenos do líder. Avançou em direção ao carro, buscando a mão do poeta, o carro andando devagar, ele acompanhando, sempre buscando a mão do poeta, numa tentativa andante de uns 30m. Até o veículo parar e o aperto de três mãos acontecer. Ao voltar, perguntei-lhe o que Ronaldo falou. “Ébrio amigo...”, respondeu o Rei do Meretrício.

    DOENDO LONGE

    A goleada de 7 a 1 imposta pelo Bahia ao Campinense doeu bem longe daqui. Uma tia minha e o amigo Jurandy França, que residem em São Paulo há décadas, lamentaram a vergonhosa derrota. “Essa doeu”, queixou-se Rita, a tia-irmã. O time não honrou seus torcedores, a exemplo do meu irmão Patrício, que, quando operado do coração (há 15 anos), ainda internado, pediu ao médico a liberação para ir um jogo. Claro que não foi atendido.

    AINDA O MUSEU

    O coordenador de Turismo de Campina Grande, Miguel Ângelo, que é casado com uma sobrinha minha, confirma que a Secretaria de Cultura do Município está em negociação para adquirir o acervo do Museu Luiz Gonzaga, que funcionava no bairro do Cruzeiro e cujo prédio teria sido vendido. Torçamos pela nobreza de um acordo entre José Nobre e a secretária Giseli Sampaio. Há esperança, pois o homem não é Alencar.

  • PROSA DE FREGUESIA - Notícia trágica(XXI)

    11/03/2021

    No primeiro dia de Aparecida na casa de Severina Pereira ninguém acreditou no seu trabalho, menos ainda que viesse a dar conta da cozinha e da limpeza geral. Magra ao extremo, o rosto fino realçado pelo cabelo alongado até os ombros e os olhos fundos a denunciar algum excesso, enganou a todos na extremidade de sua disposição diligente. Até os agregados, feito eu. A satisfação unânime com sua lida já refletia nos semblantes daquele lar, em menos de um mês.

    O certo mesmo, passados quase 40 anos, é que Aparecida foi a melhor doméstica que apareceu na casa de Severina Pereira, nesse longo tempo do meu acolhimento necessário imposto pelo comércio da família, posso testemunhar. Daí, a justificativa para tantas saídas e voltas, certamente resultantes das denúncias de seus olhos fundos, cujas olheiras os aprofundavam ainda mais.

    E o que denunciavam os olhos fundos de Aparecida? Foi um mistério logo desvendado pela dupla patronal. Em que pese a emaciação perceptível, Aparecida vivia de farras e aventuras amorosas constantes. Mas no trabalho, além da disposição demonstrada nos primeiros dias, mantinha uma discrição que impunha o respeito dos funcionários e clientes do setor comercial da casa. Nunca deu bolas pra ninguém.

    Várias foram as vezes, portanto, que Aparecida trabalhou na casa de Severina. Na última, a moça farrista teria ido embora de Campina Grande, pois ficamos sem saber notícias. Até o dia em que disseram a Severina que Aparecida morrera assassinada na zona de meretrícios de Itabaiana. O sentimento de tristeza dominou a todos e a patroa logo providenciou uma missa pela sua alma, rezada na igreja mais próxima.

    Passado pouco mais de um ano, na solidão comercial das 2h da tarde, Severina se aproxima da porta anexa do estabelecimento, após transpor o portão principal da casa. Olhos arregalados, a face mais avermelhada do que é, um pouco ofegante, e me chama. “Veja quem apareceu agora aqui”, disse. Aí, sorrindo da notícia trágica, os mesmos olhos fundos e as olheiras mais acentuadas, Aparecida chega à porta. Logo foi falando, como querendo testemunhar que não é assombração.

    O PASTOR E A MASSA

    O amigo Marcos Dias Novo, colega dos tempos colegiais em Patos, costuma ir a uma padaria em Esperança, cidade em que reside e pastoreia seu rebanho batista. Afora o pão, saboreia umas bolachas em formato de coração, fabricação exclusiva da casa. Esta semana, ao chegar no finalzinho da tarde, não encontrou o produto na prateleira de sempre e perguntou à moça do balcão onde ele estava. Certeza, não eram as bolachas do deputado.

    INSPIRAÇAO POÉTICA

    Ocupada com outro cliente, a balconista pediu à colega, em atendimento no meio do salão, servindo sopa, que lhe mostrasse o novo local da bolacha, pecando pela omissão do nome do produto. “Ô fulana, mostra pra ele o coração...”. A moca sorriu, franziu a testa e, descontraindo ainda mais o momento, indagou: como posso fazer isso? Todos sorriram. Marcos, multifacetado, como poeta cordelista aproveitou o mote involuntário e escreveu as três estrofes que seguem.

    BOLACHAS OU CORAÇAO

    Eu fui lá na padaria/Lá não fui pra buscar pão/Na forma de coração/Eram as bolachas que eu queria/De outra não pretendia/Mas a moça do balcão/Com gentil educação/Disse à colega da frente/Mostre aí para o cliente/Onde fica o coração.

    E a moça desconsertada/Olhou pra outra e sorriu/Dizendo pra quem pediu/Agora estou enrolada/Pra resolver a parada/Aqui nesta ocasião/Sem clima de emoção/Ou uma música tocada/Vai parecer uma cantada/Eu mostrar meu coração.

    Foi só um mal-entendido/Sorrindo se resolveu/Todo mundo se envolveu/No clima ali expandido/Mas ficou esclarecido/No bom senso e na razão/Qual era sua missão/E assim mais que ligeira/Me mostrou na prateleira/Bolachas de coração.

  • PROSA DE FREGUESIA - O que vem do céu (XX)

    04/03/2021

    Até mesmo Lopito demorou a entender o motivo de ganhar esse apelido na infância, colocado pelo amigo do pai, e pelo qual é conhecido até hoje, já vivendo a terceirização da idade. Só muitos anos depois, na plenitude de nossa vida adulta, apontei ao companheiro de “tantas jornadas” a causa mais aparente para o inusitado cognome. “Esse Lopito só pode vir de Lopes, da família do teu pai”, sugeri. “Que tem a significação de lobo. Então, tu és um lobinho”, curti.

    O apelido de Lopito foi uma inspiração de Jano, certamente querendo homenagear o seu cúmplice de farras na solteirice distante. Recentemente descobri que Lopito é um poeta, professor e crítico literário angolano, cujo nome de batismo é João André da Silva Feijó. “Mas eu sou `poeteiro´ e dos bons”, reagiu ao ser informado da existência desse vate.

    Além da amizade duradoura, Lopito me proporcionou o prazer de uma parceria comercial até quando estive em atividade. Nesses dois anos de ócio, raramente o encontro, mas nessa pandemia sempre me liga para falar de suas reações em determinado momento, como da vez que reclamou da senhora que lhe vendeu uma maçã estragada. Diante da queixa do cliente, insistiu não ser culpada. “Já sei. A senhora não estava dentro dela”, ironizou, rindo.

    Uma das aptidões de Lopito, revelada na clausura domiciliar imposta pela Covid19, é fazer suco, qualquer que seja a fruta, com água ou com leite. Todos em casa gostam. “E o suco do pai? cobra o filho, quando quer se refrescar no lanche da tarde. “O suco do pai, meu filho, é melhor do que o soco do pai”, brincou, certa vez, após o pedido filial pela produção caseira de sucos.

    Lopito também conserva uma amizade com Anjinho tipo “carne e unha”, embora não concorde com as excessivas aventuras amorosas do amigo e por isso vive a censurá-lo. Em conversa descontraída com uma parente próxima de Anjinho, estimulou, simulando um julgamento prévio e mundano. “E anjinho vai pro céu ou não?”. “Aquele, parece que não”, concordou a moça, depois de esboçar um sorriso gentil.

    A filha de Lopito tem um nariz tão apurado, que ele chega a desconfiar ser portadora do distúrbio da hiperosmia. Seu poder de percepção aos odores desagradáveis impressiona, visto ser capaz de sentir mal cheiro até em perfume francês. Em casa, costuma pressentir o azedume do leite. Pode apostar: quando colocado para ferver, mesmo na validade, o líquido corta.

    Recentemente, ficou zangada em função da mãe ter esquecido suas roupas estendidas no varal e expostas às chuvas intermitentes da noite. “Vai ficar fedendo”, previu. No outro dia, após chegar do trabalho, encontrou as roupas na sua cama, limpas e cheirosas. “Elas não estão fedendo, não”, reconheceu. “Claro, minha filha. O que vem do céu não fede. Também quem chega lá”, advertiu o genitor.

    EDIL DA MUDANÇA

    O meu amigo Jurandy França, paraibano que não esquece a terrinha e todo ano vem curtir as férias na sua Arara, foi incentivado a conhecer o vereador da mudança. Apresentado ao edil, chegou a elogiá-lo pensando ser ele o cara disposto a mudar os costumes políticos locais. “Na minha campanha, não comprei voto, não dei dinheiro a ninguém. Meu projeto é mudança. Tenho um caminhãozinho e fiz mais de 150 mudanças”, confirmou. Aí fez mudança na cabeça pensante de Jurandy.

    MUSEU DO FORRÓ

    O padre Hachid, mesmo exercendo o sacerdócio a quase 130Km, não perde oportunidade de incentivar o desenvolvimento de Campina Grande. Em conversa descontraída, via WhatsApp, com o novo coordenador de Turismo, Miguel Ângelo, sugeriu a criação do Museu do Forró. Sugestão que eu endosso. Por falar em museu, qual a situação do Museu Luiz Gonzaga, cujo prédio, no bairro do Cruzeiro, teria sido vendido?

  • PROSA DE FREGUESIA - Confissões no balcão (XIX)

    25/02/2021

    A relação entre comerciantes, funcionários e clientes tende, sempre, a se transformar em amizade. Nessa conversão o nível de confiança se eleva a ponto de intimidades e segredos de alcova serem revelados, até sem querer, na espontaneidade das conversas ou consequências de rumos que esses diálogos tomam. Foi assim que me foi confessada a traição matrimonial daquela mulher sem quaisquer ares de suspeição.

    Nos meus tempos laborais na zona leste, um cozinheiro alegre costumava fazer as compras de carne para o restaurante em que trabalhava. Nos momentos de pouca ou nenhuma frequência, enquanto providenciavam seus pedidos, os colegas apimentavam a conversa, arrancando-lhe revelações, como a debutaçao de sua entrega. “Perdi minha virgindade aos 15 anos, num rio, lá em Caicó. Ai, ai. Ainda me lembro”.

    Já na minha loja, depois de anos de bate-papos, a morena da área da saúde, de 1,80m, compleição robusta, revelou a surra que dera no marido ao descobrir, depois de anos de casados, uma traição. “Não aceitei. Fiz tudo com ele, que me ensinou tudo. Aprendi tudo. Fiquei cega...”, recordou. Ele foi parar no hospital. Claro, não o que ela trabalhava. Escapou, mas nunca mais voltou pra casa.

    Carrinhos de picolé e de pipocas, carroças, além de fiteiros pendurados ao corpo, entre outros, tumultuavam a portaria do Capitólio, no auge da frequência aos cinemas serranos, na minha infância feliz. Um deles, o da venda de “gelo raspado”, enfeitado de pinturas variadas e inscrições de frases tipo para-choque de caminhão, cativara minha atenção. “Mulher chifreira merece pimenta na beira”, essa, certamente pela rima, nunca esqueci.

    No processo de produção de carne de sol, o especialista abre, com um facão apropriado, a peça (coxão mole, por exemplo) ao meio, sem dividi-la. Depois de aberta, usa a faca mais amolada, e risca vários cortes rasos de um lado, de modo que não perfure o outro. Nessas incisões, coloca-se certa quantidade de sal, usando o dedo do meio (pai-de-todos) para infiltrar mais o sal. Na ação de salgar a carne, logo me vinha à mente a frase raivosa.

    Lúcia, morena conterrânea de Sivuca, foi nossa cliente até tomar outro destino. Tinha uma curiosidade imensa em saber do processo de produção da carne de sol. Prometi um dia preparar uma peça com essa finalidade. Bastante tempo depois, ela chega justamente quando começo a cortar uma manta de coxão mole. “Estás fazendo carne de sol? Eu quero ver”, cobrou.

    Terminado o procedimento de corte, pedi um ajudante para levar a peça à bancada da salga e convidei Lúcia para me acompanhar. Joguei o sal na manta, espalhando-o por toda parte. Na hora de usar o dedo do meio, lembrei da frase, e não resisti em contar-lhe a história. “Mulher chifreira merece pimenta na beira”, pronunciei, sem desconfiar o que cometera na vida. “Mereço não, seu Valberto. Faz tanto tempo que já estou perdoada”, revelou.

    IVAN LOPES

    Vi poucas vezes Ivan Lopes, pai da nossa também saudosa colega Karina Araújo e que nos deixou há uma semana, jogar. Apenas quando o Campinense tinha algum compromisso em Patos, cidade que residi por cinco anos a partir de 71, aos 12 anos. Mas o bastante para enxergar sua potencialidade como jogador, a exemplo da maioria do elenco daquele “time de Zé Pinheiro”.

    UM GOLAÇO

    Ficou na minha memória o gol que ele marcou no Estádio José Cavalcante, quando ainda jogava de lateral-esquerdo, antes de formar dupla de área com Deca. Pense num golaço! Dominando a bola junto à linha lateral e bem próximo da linha de meio de campo, viu-se acossado sem ter para quem passar a bola, olhou para o goleiro e de pé esquerdo cruzou voltando, formando um curto arco-íris incolor. Foi no ângulo. Pena que foi gol contra.

    ENTREVISTA

    Vale a pena ver de novo (quem não viu, ver) a entrevista concedida por Ivan Lopes a Paulo Roberto, no programa Ponto a Ponto, da TV Itararé, há dois anos. Deve estar no Blog Camisa 10. Um pouco da história do futebol de Campina Grande da primeira metade dos anos 70. Não lembrava que Ivan jogou no timaço do Tiradentes de Teresina de 74 e 75. Lá, a repercussão de sua partida foi grande. Mereceu até nota de pesar da Federação de Futebol do Piaui.


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