DESFECHO INEVITÁVEL (Por Júnior Gurgel)



O racha no PSDB capitaneado pelo senador Tasso Jereissati, e tendo como porta-voz o vice-presidente do Senado, Cássio Cunha Lima, remete o País a mais um quadro de crise e desta feita sem saída legal a não ser rasgando a Constituição Federal, já totalmente desfigurada com mais de 112 emendas enxertadas em seu texto original (1988), tendo em tramitação mais de 300 PECs e com mais de 1.200 proposituras de alterações em seus artigos.

Não temos mais democracia. A legislação é vulnerável e mutante em função das circunstâncias momentâneas. Não se constrói nem se governa uma Nação com leis que mudam a todo instante, sem programas inalteráveis e definitivos que se consolidem em longo prazo. Os Poderes estão totalmente divididos, se imiscuindo nas prerrogativas dos demais. Existe gravidade mais excêntrica, e sem precedentes na história, que a “Judicialização” do Poder Legislativo? Como é possível o Judiciário ditar regras, aceitar ou não, modificar via entendimentos ou decisões as leis elaboradas pelo Poder que elabora as leis e existe só para esta função?

Quando o vice-presidente do Senado (Cássio Cunha Lima) em entrevista ontem (07.07.2017) a Gerson Camarotti – Globo News - se posicionou em defesa do afastamento do Presidente Michel Temer, argumentando que ficará ao lado dos soldados da infantaria (Deputados Federais), e não seguirá a orientação dos generais (Senadores e Direção do PSDB) abriu espaço para que uma sublevação anárquica se instalasse na Câmara dos Deputados, ressuscitando o “centrão” e sua picaretagem extorsiva que corrói Orçamento da União e compromete todos os programas do Poder Executivo. Foi este “centrão” que segurou Lula no mensalão, que sustentou Dilma após sua eleição (2010) e que a destituiu via impeachment, quando não pode mais pagar o preço exigido pelos insaciáveis “chacais”, nos dois momentos de votação.

Assaltaram o tesouro da Nação na seção de “encaminhamento do voto”. Sem mais dinheiro para pagar o dobro na votação plenária, ele viu na TV aqueles que tiveram em Palácio e jurou fidelidade, derrotá-la.

O Poder tem formato piramidal. E em se tratando de política, a coerência é fundamental para construir a biografia de um líder. O senador Tasso Jereissati – um dos “caronistas” do Plano Cruzado e do dinheiro dos contra da Nicarágua (eleições 1986), elegeu-se surpreendentemente governador do Ceará. Quando o PMDB caiu em desgraça, após a falência do Plano Cruzado, foi um dos primeiros a abandonar seu “criador” José Sarney e fundar um partido (PSDB), para não arcar com o ônus da deterioração de sua legenda. Agindo de forma inversa, o poeta Ronaldo Cunha Lima (PMDB-PB) foi o único a aceitar o desafio de ser candidato a governador da Paraíba (1990) após o desastre do Cruzado e o desgaste do governador eleito em 1986 por seu partido, Tarcísio Buriti. Humberto Lucena que sonhava ser governador e não teria o menor prejuízo se fosse candidato em 1990, deixou a oportunidade passar e empurrou Ronaldo na “fogueira”.

A história registra: em 1986, o PMDB elegeu 22 dos 23 governadores dos Estados (na época). 38 dos 47 Senadores (incluindo-se pela primeira vez o Distrito Federal com três senadores). Quatro anos depois, com a nova Constituição que criou três Estados e cargo de governador para o DF, o PMDB elegeu apenas sete governadores, coincidentemente os mais coerentes com a história do partido. Ronaldo Cunha Lima (PB), Gilberto Mestrinho (AM); Iris Resende (GO); Moisés Avelino (TO); Jader Barbalho (PA); Roberto Requião (PR) e Luís Antônio Fleury (SP).

Ronaldo Cunha Lima nunca se insurgiu contra “diretivas” de sua sigla. Sabia que seu momento de 1986 estava sendo usurpado por Humberto Lucena, preferindo atrair um adversário, desprezando a “resistência histórica” da casa. Curvou-se a decisão como oficial dubalterno, obedecendo ao Estado Maior composto pelos “generais”. Não trocou de legenda e como bom combatente foi para o “Campo da Honra”.

A manobra de Jereissati (que já presidiu o PSDB antes de ser derrotado pelos irmãos Gomes) era antevista desde o surgimento dos primeiros rumores que envolvia Aécio Neves com a lava-jato. Comentaristas políticos da Rede Globo alimentaram a ideia de Tasso ser o Presidente, escolhido por eleições indiretas no Congresso Nacional. Vinha ocorrendo tudo do modo planejado. Denuncia contra Temer pela PGR, “cochilo” proposital ou não do STF, inventando um rito de enviar para Câmara um pedido de autorização para investigação de um Presidente da República através de decisão monocrática, e não plenária da Suprema Corte... Por quê?

Presidente da Câmara Rodrigo Maia não resistiu ao “canto da sereia” e pensando como Jereissati (traição) admite participar da trama, para ficar por seis meses como Presidente da República, na intenção de se fortalecer e eleger-se indiretamente, o que lhe dá o direito a reeleição. Como todos traem todos, entrou em cena ontem o ex-presidente Eduardo Cunha - mentor de toda a crise de demolir a democracia - que já avisou: em sua delação arrastará Temer, Rodrigo Maia e Eunício Oliveira. O mar de lama transbordará.

Para quem está preso, vendo todos seus colegas no quotidiano do “festivo Parlamento brasileiro”, e ele, grande artífice de todo o projeto de derrubada do PT, receber como recompensa a cadeia? Basta lembrar que o acontecido com Eduardo Cunha foi o mesmo que ocorreu com Aécio Neves. Mas, o senador mineiro soltou sua irmã, assumiu o Senado sem nenhuma restrição, graças ao ministro Marco Aurélio de Mello, reformar uma decisão de um de seus pares. E por que Cunha não teve este mesmo tratamento? Foi afastado do mandato de deputado, da presidência da Câmara, e depois encarcerado. Segundo advogados de Cunha, Temer pôs Rocha Loures na rua.

Por que Cunha não o acompanhou? Rodrigo Maia, que o sucedeu com seu apoio, nada fez para ajudá-lo no plenário, evitando sua cassação. Agora, a regra vale para todos. Caso Temer venha a ser afastado depois da denuncia de Eduardo Cunha, quem assumirá a Presidência da República? Na linha de sucessão e sem denuncias, só a ministra Carmem Lúcia, que poderá enveredar por um ato institucional e antecipar as eleições diretas para dezembro deste ano. Se isto acontecer é o juízo final: Ninguém escapará incólume.




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